“Eu não vacilo, sou como eu sou”. É assim que Antônio Ronaldo, expoente da poesia marginal natalense, se define, citando o verso de “Cogito”, poema de autoria do tropicalista Torquato Neto [1944 – 1972]. O piauiense Torquato Neto, aliás, exerce certo fascínio sobre o mossoroense Antônio Ronaldo. “Ele é uma coisa que bate muito forte em mim, não sei explicar. Ele é muito essencial pra mim”, declara-se.

Depois de 15 anos de jejum editorial, Antônio Ronaldo lança nesta sexta-feira (16), a partir das 20h, seu terceiro livro de poesias: “Ao Judas Atraente”. É preciso, porém, fazer uma ressalva. Essa conta não inclui suas três primeiras publicações, lançadas em formato mimeografado, entre os anos 1980 e 1985.

A nova publicação, segundo o autor, “talvez seja uma busca de me vincular a essa origem contracultural e me desvincular desses formalismos do mundo das letras”. Antônio Ronaldo é um poeta avesso às formalidades editorias, aos ritos literários e às “liturgias oficiais”. Durante nossa conversa em sua casa na Praia da Redinha, ele fez questão de ressaltar esse aspecto.

“O que eu sempre desejei para esse livro era fazer uma coisa antieditorial, fugindo dos padrões da editoração, dos cânones da editoração formal. Por isso, eu mesmo escrevi a orelha e a apresentação do livro. Não convidei ninguém, porque acho chato ficar pedindo às pessoas para me prefaciar. Era como se fosse fazer uma folha poética, mas de repente chegou a esse formato, num processo que levou dez anos”, explica.

Ele classifica essa preocupação em não se enquadrar nos formalismo como uma “insurreição contra os cânones editoriais”, que seria uma forma de resgatar o seu “espírito fundante”.

A ligação com o pessoal da poesia marginal, movimento que vigorou na cidade nas décadas de 1970 e 1980, surgiu por amizade, simpatia e vinculação estética. “A gente era de uma geração que curtia os mesmos poetas e os mesmos caras da música da contracultura”.

Dessa época, ele ainda mantém a pegada pop presente em suas poesias, muito em função de transitar entre a literatura e a música. “É estranho para quem é de outra geração quando vê esse mix que a gente faz das linguagens, porque a gente aprendeu a tematizar as coisas do mundo pop, da cultura underground e de tudo que faz parte do nosso background cultural. Isso tudo reflete no que a gente escreve”, reflete.

A inspiração para escrever seus versos vem de todas as coisas. Ele afirma que “tematiza a vida, o cotidiano e as minhas reflexões”. As preocupações filosóficas com a existência, o mundo, o amor, a política e a sociedade aparecem com frequência nos 80 poemas inéditos de “Ao Judas Atraente”.

O título, segundo ele, foi alvo de muito controvérsia, o que é narrado na apresentação da publicação. “As pessoas viram com estranheza, talvez por não entenderem. Em 1985, fiz um livro chamado ‘Amante Ladino’, sobre as ciladas que podem ser as relações amorosas. ‘Ao Judas Atraente’ remete a essa coisa dos riscos do fascínio que alguém exerce sobre outra pessoa. Tem a ver com a personificação da traição”, comenta.

 

Muita gente associou o título ao golpe parlamentar de 2016 que depôs a presidenta eleita Dilma Rousseff (PT), mas o poeta disse que se trata somente de “coincidência”, uma vez que o livro estava fechado há pelo menos seis anos.

Antônio Ronaldo aproveita o lançamento do livro para fazer um registro do seu trabalho como compositor. Junto com a publicação, o público receberá como bônus um CD com 12 músicas dele gravadas por diversos artistas do RN, como Cida Lobo, Geraldo Carvalho e Lane Cardoso.

O lançamento de “Ao Judas Atraente” acontece no Espaço Cultural Acabou Chorare, um reduto da esquerda natalense no bairro de Ponta Negra. A programação inclui um recital de poemas e um show musical em que diversos artistas locais vão dar voz às composições de Antônio Ronaldo.

Fotos: Vlademir Alexandre.