O lançamento do CD Ecdemomania, em 2015, desviou momentaneamente para a Tromba do Elefante o olhofote que guarda os portais da cena cultural. As canções reunidas por Juvêncio Eliano no disco com nome de patologia — o desejo intenso de estar longe de casa, de perambular pelo mundo afora — cumpriram a sina do nome, circulando nas redes sociais e cravando em Pau dos Ferros uma bandeirinha de referência.

A qualidade do trabalho valeu o convite direto para viajar numa das janelinhas do MADA 2017, depois de tentar subir no ônibus no ano passado. Disputou a seletiva com cerca de 200 grupos de todo o país, mas caiu na fase final. O show desta sexta-feira, a partir das 19h50, abre a noite em um dos palcos do festival, com o repertório do primeiro CD e a companhia dos músicos Ricardo Baya (guitarra), Júnior Primata (baixo) e Erickson Grillo (bateria).

– Eu sou de Pau dos Ferros, gravei meu disco em Mossoró. Antes de mim, tinham outros. Depois, hão de aparecer outros. Não sou o único. Mas precisamos sair para Natal se quisermos fazer o nosso som. Não que isso seja ruim. É ótimo se apresentar na capital, mas seria ótimo também tocar no interior. Para isso organizamos nossos eventos, sem apoio de prefeitura. Parece que cultura não é importante aos olhos do poder público. A cena poderia ser mais efervescente, não porque faltam bandas, mas porque falta apoio. Vejo isso em Natal também, mas como aqui tem mais pessoas que se ajudam, a coisa é mais fluvial – afirma Eliano.

Ele começou na música tocando flauta doce na infância. Apaixonou-se por Sweet Child O’mine, da banda Guns N’ Roses. Depois estudou violão, guitarra e saxofone, iniciando o trânsito das influências roqueiras para a música popular brasileira com acento nordestino. O vinco regional transparece na escolha de um verso de Belchior para retrato sintético — “tenho 25 anos de sonho e de sangue e de América do Sul” — de quem se diz apenas um compositor de música brasileira autoral:

– Minha música é forma de dizer coisas que não saberia falar de outra forma. Me dizem que sou muito calado, que falo pouco. É por causa de minha timidez. Só sei falar de mim cantando.

E escrevendo. À inclinação musical, acrescentou-se a poesia, cultivada desde sempre nos cadernos infantis e ainda à espera da primeira reunião em livro. Eliano faz mestrado em literatura africana. Realça a coloração local da sua arte, mas aspira ao que nomeou no primeiro CD:

– Fiz um disco pro mundo. Mundano: por isso Ecdemomania. Esse título reflete um desejo de perambular, como diz a faixa Tão devagar: “tenho pressa pra andar devagar, não ter lugar para chegar”. Mas eu, como sujeito de um meio, falo de cenas e paisagens pauferrenses. Tenho esperança de estar seguindo a frase de Tolstoi, cantando minha aldeia para ser universal.

Cantar seu lugar, contar seu tempo:

– Arte não precisa ter comprometimento com a política, mas quando ocorre essa relação é talvez a maneira mais eficaz de se fazer política. Eu acredito na arte engajada como uma forma de gritar perante a injustiça. A música foi capaz de ridicularizar e combater a ditadura militar. A música denuncia racismo, machismo, zomba de LGBTfóbicos e empodera o oprimido. Tenho canções que narram vivências da juventude, que faz sarau na praça, que faz movimento cultural acreditando em um mundo melhor. Cada verso de Antonio Francisco é um discurso político. Como diz Max Medeiros, um show pode deixar de ser simplesmente um show e passar a ser uma intervenção política.

Foto: Vlademir Alexandre

 

FESTIVAL MADA 2017

Área interna da Arena das Dunas

Sexta-feira, 29

Banda Uó, Mahmundi, Seu Ninguém, Eliano

Nando Reis, Plutão Já Foi Planeta, Baco Exu, Deb and the Mentals

Sábado, 30

Pitty, Kung Fu Jhonny, Dusouto, Kaya Conky

Baiana System, Karol Conka, Carne Doce, DJ Monizza