*Texto da jornalista Gabriela Olivar com foto de Vlademir Alexandre

Antes de falar sobre aborto (e atirar a primeira pedra), precisamos falar sobre a vida, a saúde reprodutiva e a liberdade das mulheres.

Antes de falar sobre aborto (e atirar a primeira pedra), precisamos entender que o Estado é laico e que as nossas convicções religiosas e concepções de moralidade no âmbito individual não devem interferir em questões de saúde pública e constitucionais.

Antes de falar sobre aborto (e atirar a primeira pedra), precisamos falar sobre a cultura do machismo que estupra e mata todos os dias e que deixa a mulher ser a única responsável por uma interrupção de gestação.

Antes de falar sobre aborto (e atirar a primeira pedra), precisamos falar sobre os métodos contraceptivos – que, pasmem, não estão disponíveis a todas as mulheres.

[Muitos homens se recusam a usar camisinha; anticoncepcionais causam intolerância em muitas mulheres; anticoncepcionais de baixa dosagem hormonal – com menos efeitos colaterais, na teoria – são caros e, portanto, não acessíveis a todas; não há ampla informação sobre os outros métodos nem ampla assistência à saúde das mulheres etc.]

Antes de falar sobre aborto (e atirar a primeira pedra), precisamos falar sobre as condições sociais onde estão inseridas as mulheres pobres e negras em sua maioria.

[O zika vírus, por exemplo, causador de microcefalia em mulheres grávidas, não está sob controle, ao contrário do que a grande mídia faz parecer. As previsões continuam alarmantes, vivemos em um país ainda em condições de saneamento básico precárias e que não garante às mulheres e à população em geral informação de qualidade.]

Sou a favor da vida, sou cristã católica, sou mulher. Pra mim, pensar o aborto de maneira isolada é ser cúmplice, de alguma forma, com a morte de uma companheira a cada dois dias por complicações decorrentes do aborto ilegal (OMS).

Não diga que o aborto foi a solução mais fácil. Não foi e não será. Tenhamos empatia.

Por um mundo onde as mulheres tenham todos os seus direitos garantidos, sobretudo o direito à vida no sentido mais amplo da palavra!