Por Fernando Mineiro / Deputado estadual do PT-RN

Quem não se lembra do “roteiro do Jucá”, a conversa escabrosa em que Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, gravou Romero Jucá detalhando as etapas do golpe para derrubar Dilma, colocar no poder a camarilha chefiada pelo vampirão neoliberal e, assim, “estancar a sangria” da Lava Jato?

Os diálogos escandalosos, gravados em março e divulgados em maio/2016, voltam à tona com a intervenção militar no Rio de Janeiro. Por uma razão muito simples: a participação dos militares nesse filme de terror também estava prevista no roteiro escrito por Jucá. E, assim como outras cenas colocadas no papel, plenamente confirmada pelos fatos. É só conferir na transcrição dos diálogos a sequência do golpe, descrita pelos dois.

“Com Dilma não dá (…) tem que ter impeachment (..) tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria (…) é um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional (…) com o Supremo, com tudo. (…) com tudo, aí parava tudo (…) delimitava onde está, pronto.” Alguma dúvida de que essa sequência foi cumprida na íntegra, com o apetite de investigadores, acusadores e juízes direcionado preferencialmente a Lula, condenado sem nenhuma prova e vítima de manobras jurídicas e políticas para acelerar o julgamento e ficar fora das eleições?

A estratégia do estancamento incluía entregar alguma cabeça coroada da camarilha, na expectativa de que o sacrifício contentasse a Lava Jato e blindasse os demais cardeais do PMDB, DEM, PSDB e outras facções envolvidas no golpe contra a democracia.

“Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.” Alguém aí pensou em Eduardo Cunha (“o Eduardo Cunha está morto”) como boi de piranha dos golpistas? Ou em bezerros como Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves?

Mas, tinha mais no roteiro. Num dos trechos pouco destacados na cobertura do assunto, o roteirista do golpe reserva uma participação especial para os militares:

“Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir.”

Fantasia ou realidade? Coisa de “profissa”… Jucá falou, tá falado.

Se não dá pra dizer que os quarteis endossaram institucionalmente o golpe, o fato é que a intervenção militar no Rio, planejada para desviar o foco da derrota de Temer na reforma da Previdência, colocou, sim, os generais como coadjuvantes no filme de Jucá.

O que nos deixa a convicção de que, se algum dia vier a ser condenado na Lava Jato e outras operações nas quais é acusado, ele pode tranquilamente ganhar a vida como roteirista de filme trash.