A execução política de Marielle Franco deu início a uma primavera que não vai parar mais. A declaração foi feita pela jovem Camila Barbosa, integrante da Executiva Estadual do PSOL, durante a audiência pública que discutiu o assassinato da vereadora carioca e a luta por democracia e direitos humanos no país, na tarde desta sexta-feira (23), no auditório da Assembleia Legislativa.

De iniciativa do deputado estadual Fernando Mineiro (PT), a audiência reuniu representantes de partidos de esquerda, coletivos feministas e movimentos sociais. O parlamentar destacou o caráter coletivo da construção do evento, cuja ideia nasceu durante o ato em homenagem a Marielle, um dia após seu assassinato, na sede do PSOL em Natal.

“Essa audiência é, basicamente, um ato de homenagem à memória da Marielle e do [motorista] Anderson [Gomes], mas também para reafirmarmos nosso compromisso coletivo com a luta que ela travava em defesa da democracia, dos direitos humanos e da justiça social”, declarou.

Durante a audiência, as falas alternadas enfatizaram a necessidade de não permitir que as causas que ela defendia sejam silenciadas. “Estamos nos alternando entre os sentimentos de luto, tristeza e indignação”, disse, em tom emocionado, Camila Barbosa.

Camila lembrou que Marielle “ocupou espaços numa sociedade racista, machista e misógina”. “A morte de Marielle não foi um assassinato qualquer, mas sim um crime político. Quem assassinou Marielle se enganou pensando que iria calar o que ela representava”, completou.

Para o vereador Sandro Pimentel (PSOL), nosso país vive um clima de “ampliação do ódio e da intolerância”. Ele destacou que os mandatos de esquerda que atuam no campo da defesa dos direitos humanos são as principais vítimas dessa hostilidade.

A reitora Ângela Paiva disse que comparecia à audiência para homenagear a memória de Marielle, mas também para reafirma o compromisso da UFRN com a luta pelos direitos humanos.

O representante da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RN, Dimitre Sinedino, citou dados sobre a violência no país para destacar o quanto estamos distante de uma sociedade baseada em preceitos civilizatórios, humanistas e igualitários.

“60 mil homicídios são registrados por ano no Brasil. A cada 100 assassinatos no mundo, 13 são no Brasil. Desses, 71% são contra negros. Um LGBT é morto a cada 25 horas, um negro é assassinado a cada 13 minutos e nós somos o 5º país do mundo em casos de feminicídio. A nossa polícia é a que mais mata e a que mais morre e temos a terceira maior população carcerária do mundo, cuja maioria é de negros. Nós somos todos vítimas da violência”, refletiu.

Ele registrou, ainda, que “nas periferias urbanas, a polícia tem licença para matar”, lembrando que a denúncia da violência policial contra a população periférica, especialmente a juventude negra, era uma das bandeiras de Marielle.

“Marielle não se conformou com esse olhar classista, racista e misógino. É por isso que ela vive, porque esses valores são imortais”, declarou.

O advogado e presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Daniel Pessoa, que teve o pai e o irmão assassinados no final da década de 1990, fez um desabafo emocionado para falar da sua empatia diante da dor vivida pelas famílias de Marielle e Anderson.

“Que essa chama da empatia e da compaixão nos faça reconstruir a luta, agora com mais uma heroína que tombou na defesa dos direitos humanos, que foi Marielle. Que ela possa nos inspirar a reconstruir essa nação e esse estado, com uma sociedade mais justa e com menos desigualdade social”, disse.

Vencer o fascismo

O representante da OAB do Rio de Janeiro e membro da Rede Nacional de Advogados Populares pela Cidadania, Rodrigo Mondego, deu um depoimento emocionado sobre a importância de Marielle para a luta pelos direitos humanos no estado dela e no Brasil.

“Existe todo um senso comum que coloca direitos humanos de um lado e policiais do outro. Isso não tem nada a ver. Quem é contra a violência policial não é a favor da violência contra os policiais. Marielle foi coordenadora de direitos humanos na ALERJ, no mandato do deputado Marcelo Freixo [PSOL]. Ela ampliou o número de atendimentos às famílias dos policiais mortos”, relatou.

Ele disse que é preciso “vencer o fascismo” que propaga a falsa ideia de que quem luta por direitos humanos é a favor de bandidos.

“Depois da primeira morte da Marielle, houve uma segunda tentativa de matá-la assassinando sua reputação. Nos primeiros ataques, resgatei uma conversa que tive com ela em 2014. A família de um policial que havia morrido me procurou para pedir auxílio. Conversei com a Marielle e ela se colocou à disposição para ajudar. Mas o que os fascistas fazem na prática além de dizer que bandido bom é bandido morto? Nada. Quem faz somos nós”, protestou.

“A única democratização em curso no Brasil é a democratização do estado de exceção. Depois da morte da Marielle, já há outros episódios de ameaças a quem defende direitos humanos no país, como no caso da vereadora Natália Bonavides. A Marielle era a única vereadora mulher, negra, num total de 51 vereadores do RJ. Se isso não é significativo, não sei mais o que é. Se não representa alguma coisa, não sei mais o que representa”, enfatizou.

A representante do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFRN, Cândida de Souza, afirmou que a execução de Marielle “precisa provocar em nós o verdadeiro incômodo diante do genocídio e o extermínio da população negra e favelada do Brasil”.

“Ela foi uma das poucas mulheres que conseguiu ultrapassar a barreira da negra e favelada. Marielle era somente mais uma das pessoas pelas quais ela lutou a vida inteira”, sublinhou.

Nós seremos resistência

A militante do PSOL-RN/MAIS e do Setorial de Mulheres Rielda Alves, representando as mulheres de diferentes coletivos feministas e partidários que fizeram uma intervenção em homenagem a Marielle, ressaltou que a vereadora “foi executada em pleno mês de março, que tem uma simbologia muito grande pela comemoração do Dia das Mulheres”.

“A escolha do alvo revela muito sobre a natureza do crime. Marielle foi executada por ser negra, mulher, moradora de favela, bissexual e militante de um partido social. Ela foi executada no RJ, estado marcado por números alarmantes de mortes de negros e negras. No último mês, ela travava uma luta contra a intervenção militar, mas sobretudo contra o genocídio e o extermínio da população negra”, destacou.

“Se Marielle foi luta quando viva, nós seremos resistência. Vamos seguir de punhos erguidos, até colocar abaixo essa sociedade e construir outra, sem violência contra negros, mulheres e LGBT’s”, defendeu.

A secretária de mulheres do PT-RN, Divaneide Basílio, enfatizou que “o sentido da nossa luta não é uma luta estanque”.

“Estamos mais desafiadas do que nunca a seguir na luta. Estamos enfrentando nosso próprio extermínio no momento em que reafirmamos nosso lugar na política, ocupamos esse espaço para transformar a política num espaço igualitário e temos que enfrentar os que tentam nos calar. Nós seremos as vozes daquelas que tombaram no caminho. Não nos calaremos”, discursou.

Além do PSOL e do PT, a audiência contou, ainda, com a participação do PC do B, PCB, PSTU, Rede, PV, UP, além de inúmeros movimentos sociais, frentes populares e coletivos de mulheres.

Fotos: Ney Douglas (Assecom/AL-RN)