“Maré”, do coletivo de dança CIDA, é o primeiro espetáculo do II Burburinho Festival de Artes, que vai agitar todas as tribos culturais da cidade, de hoje (23) até domingo (25), no Bosque das Mangueiras, em Lagoa Nova. A abertura será às 14h, com discotecagem do coletivo eletrônico Mandaca, seguindo-se a série inicial de atrações que traduzem o espírito da coisa: integrar de fato as linguagens.

“Apesar de termos festivais que integram, eles não são necessariamente um festival de artes integradas, porque sempre há uma linguagem que se sobrepõe às outras. O Burburinho tem um formato onde todas as linguagens ocupam a programação de forma harmoniosa”, explica Nathalia Santana, idealizadora e diretora do festival.

O Bosque das Mangueiras vai receber cinema, dança, teatro, música, artes visuais e literatura. Exposições, oficinas e saraus, feira de artes e artesanato e a praça da alimentação complementam a programação, que este ano tem uma novidade: o Escambo Cultural, para a troca de livros, discos, filmes, revistas e zines. A entrada é gratuita e a programação completa pode ser conferida no site oficial do evento: www.burburinhofestivaldeartes.com.br.

Leia a seguir trechos da conversa com Nathalia Santana, diretora do Burburinho.

UM FESTIVAL DIFERENTE

“O Burburinho é um projeto que vem sendo pensado há um bom tempo, e acredito que seja o resultado de muitas coisas que já fiz ao longo desses 10 anos atuando como produtora cultural, o que confere à proposta uma carga grande de ideias e quereres, que inicialmente parte de mim mas que é compartilhada com a equipe, com amigos, com o próprio público, que, após a primeira edição, nos deu um feedback importantíssimo para o aprimoramento do festival. O que acaba marcando muito fortemente a nossa proposta é a integração das linguagens artísticas, pois apesar de termos festivais de artes que integram, eles não são necessariamente um festival de artes integradas, porque sempre há uma linguagem que se sobrepõe às outras. Assim são os festivais de teatro, que têm música, têm exposição etc, porém o foco é o teatro. Assim são os festivais de dança, de música, e daí por diante. O Burburinho tem um formato onde todas as linguagens estão ocupando a programação do evento de forma harmoniosa. Vale ressaltar que esse “todas” aí ainda não compreende a dimensão total de linguagens artísticas, mas, pensando numericamente, trabalhar com seis já é um número considerável, e são elas: teatro, dança, música, artes visuais, cinema e literatura.”

ECONOMIA SOLIDÁRIA

“Também é uma característica muito forte do Burburinho a de não ser apenas uma atividade de entretenimento, mas uma plataforma de sociabilidade. Queremos que as pessoas cheguem ao evento e passem o dia inteiro, assistam aos espetáculos, caminhem pelo bosque, interajam umas com as outras, aprendam algo novo, se alimentem, ocupem verdadeiramente aquele espaço. E comunguem conosco dos nossos objetivos, que são pautados na ocupação e ressignificação dos espaços públicos; na promoção gratuita de atividades culturais que estimulem a sensibilidade, o senso crítico, e que despertem no público cada vez mais o interesse por práticas culturais; no reconhecimento e valorização da produção artística da cidade; e na movimentação da economia cada vez mais solidária e criativa, onde todos possam sair ganhando e onde possamos também mostrar que a cultura tem potencialidades econômicas para o município. Se não for por todas essas coisas citadas acima, não vale a pena: o evento pelo evento é superficial, efêmero. Queremos mais, queremos a possibilidade de construir uma plataforma de difusão de ideias e ideais que acreditamos importantes para a transformação da cidade e da sociedade de forma geral.”

INTEGRAR AS ARTES

“O que provocou [o Burburinho] foi justamente o fato de já existirem propostas muitos bem estruturadas e legais acontecendo na cidade com foco em linguagens específicas. Eu adoro festivais, e claro que me inspirei em vários para formatar a ideia do Burburinho, mas ela surge mesmo inicialmente de um projeto que realizei em 2012/2013, no Solar Bela Vista, chamado Poéticas Ensolaradas, onde a programação já contemplava essa diversidade de linguagens. A cada edição tínhamos um tema e trabalhávamos dentro desse tema as atrações e ações.

Eu acho que todas as cidades deveriam ter um festival de artes integradas, porque é lindo, os artistas se mobilizam, demonstram interesse, se sentem contemplados, valorizados, paira no ar uma sensação de confraternização, a imprensa reverbera, o público chega junto e começa a responder de forma calorosa a nossa proposta. Chega um momento que é uma apoteose, e isso faz bem demais pra autoestima da cidade. É assim que tô sentindo essa segunda edição do Burburinho, que, claro, ainda não tem uma grande dimensão, mas que está aos poucos se espalhando de forma muito consistente graças ao trabalho e apoio de muitos.”

FINANCIAMENTO DA CULTURA

“Infelizmente ainda estamos presos as leis de incentivo para o desenvolvimento de ações mais robustas e consistentes, tendo em vista que, para executar nossos projetos, precisamos de recursos. É importante entender que as leis de incentivo à cultura têm um teor neoliberal e funcionam dentro de uma ótica de mercado, pois são baseadas na isenção fiscal, tendo como foco a relação do produtor com a empresa patrocinadora, que pode destinar uma parcela do imposto a ser pago ao município para o projeto aprovado pela lei. Exemplificando melhor: a Lei Djalma Maranhão é a lei municipal de incentivo à cultura da cidade do Natal. Ela contempla projetos que são submetidos e aprovados pela sua comissão. Após a aprovação, o proponente ganha um certificado e ele parte pra campo com o intuito de vender o projeto a uma empresa que tenha interesse em alinhar sua marca com a da proposta. Por um lado, o Estado chega junto, quando decide por renunciar ao imposto da iniciativa privada; porém, por outro lado, lava as mãos, caracterizando com isso uma política cultural totalmente fragilizada, onde poucos são os que vão de fato conseguir colocar pra frente seus projetos.

Essa é uma discussão longa, desde que foi criada a Lei Sarney, a primeira lei federal de incentivo fiscal para atividades artísticas no Brasil, instituída em 1986 e que posteriormente, em 1991, foi substituída pela lei que conhecemos hoje, a Lei Rouanet.

Aí você me pergunta: Então quer dizer que as leis de incentivo são ruins? E eu respondo: não! É um excelente negócio e eu trabalho muito bem assim. Estão aí o Burburinho, o Cine Verão e outros projetos.”

REFORMULAR INCENTIVOS

“É fundamental que existam as leis, porém que passem por reformulações, por melhorias, por um processo burocrático menos desgastante e intimidador para muitos. Além das leis de incentivo via renúncia fiscal, o que o Estado deve fazer é reestabelecer os fundos de incentivo à cultura, que podem de maneira mais direta contemplar projetos de cunho menos comercial.

Para mim o poder público estará mais cumpridor quando de fato entender política cultural de maneira menos superficial, pensando em mecanismos de preservação e difusão cultural, de incentivo financeiro que não dependa do interesse da iniciativa privada, quando o diálogo for de fato valioso para pautar as práticas da gestão, quando se respeite os artistas e profissionais da área, quando os cachês para eventos do poder púbico sejam dignos e pagos num tempo no mínimo razoável, porque chega a ser abusivo.

O grande desafio dos produtores culturais é lidar com toda essa estrutura, essa cena na qual estamos inserido, e paralelamente buscar alternativas, pesquisar ideias que possam apontar para novas possibilidades de financiamento e de realização.”

 AJUSTES NO FESTIVAL

“Ao final da primeira edição, realizamos uma pesquisa com o público e, no total, 476 pessoas responderam ao questionário que disponibilizamos on-line. A partir disso conseguimos pontuar muito objetivamente o que, de acordo com o público, precisávamos melhorar e o que deveríamos manter. Também num exercício muito crítico entre a equipe, pontuamos questões e situações que precisavam ser aperfeiçoadas. Fizemos algumas modificações, como no horário. Na primeira edição o festival acontecia das 10h até às 22h, já nessa será das 14h às 22h, tendo em vista que pela manhã o público era bem menor e também gerava um cansaço maior, não tínhamos muito tempo para ajustes prévios, e isso ia acontecendo antes de cada atração, o que não interferia na pontualidade de nossa programação, coisa que manteremos sempre, mas que desgastava um pouco a equipe e também as pessoas que estavam atuando na feirinha e praça de alimentação, pois chegavam lá bem cedo e saíam bem tarde. Essa alteração no horário foi muito debatida e acatada.”

PROGRAMAÇÃO

“A nossa estrutura permanece a mesma, com poucas alterações, ampliação de espaços, mais iluminação, além de estarmos cuidando ainda mais da ambientação, com um trabalho de instalações artísticas da GG Artes Espaciais e do Stúdio Proa. A programação se mantém com espetáculos de artes cênicas, exibição de curtas, exposições de artes visuais, shows, djs, oficinas, sarau, e ganha um espaço chamado de Escambo Cultural, onde as pessoas poderão levar discos, livros, revistas, zines, artigos culturais que desejem compartilhar, passar pra frente, e assim fazer circular conhecimento. Continuamos com a feirinha, formatada por 20 empreendedores bem criativos, é uma seleção bem focada nisso, em quem tem produtos interessantes, com conceitos, e que comungue com a nossa proposta estética, e também temos a praça de alimentação, com possibilidade do público ter mais conforto e possibilidade de permanecer mais tempo curtindo o festival. Agora prefiro não falar mais nada e convidar todo mundo pra chegar junto e conferir nossa 2ª edição. Venham fazer esse burburinho com a gente!”

Fotos: Divulgação