A manchete do extinto “Diário de Natal”, em sua edição de 30 de março de 1994, anunciava: “Lula desce às bases e ouve o povo”. O relato fazia referência à passagem pelo RN da “Caravana da Cidadania”, liderada pelo então candidato à Presidência da República pelo PT.  A ideia de percorrer o Brasil veio depois da derrota para Collor, no segundo turno da eleição de 1989, a primeira depois da ditadura militar instaurada com o golpe de 1964 e que perdurou até 1985.

O objetivo era aprofundar o conhecimento sobre o país, vivenciar de perto o sofrimento do povo mais humilde e mobilizar novamente a esperança dos brasileiros, abalada pela frustração depois da eleição de Collor. Passados 23 anos da primeira Caravana da Cidadania, Lula volta a percorrer o Brasil, para se reencontrar com o povo, defender o legado dos governos petistas e pregar a resistência diante da tentativa do governo ilegítimo de usurpar os direitos conquistados pela classe trabalhadora.

“Naquele momento, a gente havia saído da ditadura militar, teve a eleição, a frustração com o Collor. Vivíamos a disputa com FHC, às vésperas da eleição de 1994. Hoje, o país é outro, Lula é outro e nós somos outros, não no sentido do envelhecimento, mas de concepção sobre o Brasil”, comentou o deputado estadual Fernando Mineiro (PT).

À época da primeira caravana de Lula, Mineiro estava em segundo mandato de vereador em Natal. Para ele, a nova incursão do ex-presidente pelos rincões do Brasil, diferentemente de 1994, tem agora “o sentido de reafirmar um projeto para o país”.

“Enquanto está aí uma política de destruição de tudo que foi feito nos últimos anos, eu vejo essa caravana como um ato de resistência a isso. A marca dessa caravana, como diz o próprio nome, é a luta pelo Brasil”, opinou.

Mineiro afirmou que Lula “está fazendo um exercício de teimosia” ao não se deixar abater nem se permitir baixar a cabeça. “Ao mesmo tempo, ele se alimenta dessa energia do povo. É uma simbiose única, que dificilmente vamos ter de novo”.

Júnior Souto, presidente estadual do PT, recorda que aquela caravana precedeu “o processo de construção desse projeto que viria a se viabilizar nas eleições de 2012, com a vitória do PT, dando início à implantação do programa democrático e popular no Brasil”.

“O importante é recuperar os significados políticos que aquela visita teve para nós. Há algo de semelhante entre aquilo que Lula buscava em 1994 e o sentido dessa caravana de 2017”, argumentou.

Para Júnior, primeiro deputado estadual eleito pelo PT no RN, Lula busca, agora, “respirar o sentimento popular, recuperar a expectativa do futuro e reconectar a esperança do povo com o Brasil”.

Memórias

De 1992 a 1994, Lula percorreu 359 cidades de todas as regiões do Brasil. No RN, segundo recorda Mineiro, durante dois dias, ele visitou Canguaretama, Pedro Velho, Montanhas, Santo Antônio, Santa Cruz, Currais Novos, Caicó, Mossoró, Assú, Ipanguaçu, Alto do Rodrigues, Pendências, Macau, João Câmara e Natal.

Júnior Souto disse lembrar-se do encontro com Lula em Assú, de onde a caravana seguiu para Janduís, Currais Novos e Caicó.

“Tivemos contratempos no trajeto, porque em duas cidades as pessoas colocaram carros, carroças e até trator no caminho, obrigando ele a descer, atrasando a agenda em outros lugares. O povo queria ver, ouvir e falar com Lula”, narrou.

“Era um tempo de enormes dificuldades na construção do partido, éramos um partido ainda na adolescência. As dificuldades materiais eram gigantescas, mas a alegria e o entusiasmo eram muito semelhantes com o que estamos vendo agora”, comparou.

O professor Jailson Cordeiro foi de Natal a Montanhas ver a passagem de Lula. Naquele tempo, ele havia migrado da sua cidade de origem para a capital potiguar. “Foi espetacular”, descreveu, sobre a atmosfera daquele dia 29 de março de 1994.

“Foi um acontecimento na cidade”, acrescentou, para em seguida se dizer feliz de ter imortalizado a cena ao fazer algumas fotografias em preto e branco do ato público com Lula na frente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Montanhas.

Numa delas, é possível ver a hora marcada pelo relógio analógico usado por Lula. Era perto de meio-dia e o sol, como sempre, não dava trégua. “Mas a praça estava lotada. A receptividade do povo foi calorosa”, assegurou.

Em Assú, Lula falou ao povo num palanque improvisado, montado em cima de um caminhão. O petroleiro Luiz Carlos se orgulha de ter feito o discurso de abertura do ato político.

“Nós fomos receber ele na entrada da cidade. Depois teve o ato público na praça, perto do Banco do Brasil no Centro”, recordou. Lula visitou, ainda, os projetos de fruticultura irrigada do Vale do Açu, para em seguida partir em direção a Ipanguaçu, Pendências, Alto do Rodrigues e Macau.

O borracheiro Renato Pereira da Silva conta que fez “a segurança de Lula em Currais Novos”, onde o ex-presidente estará novamente neste domingo (28) durante sua passagem pelo Rio Grande do Norte.

Mas Renatão, como é mais conhecido na cidade, também tinha uma charanga que, reza a lenda, fez muito barulho para Lula. O palanque, segundo o borracheiro, foi um caminhão antigo de um amigo dele.

O ato aconteceu numa avenida ao lado do famoso Hotel Tungstênio. “Ele chegou com uma hora de antecedência. Pegou todo mundo de surpresa”, rememorou. Renato disse que a cidade, desde aquela época, mudou muito.

“Currais Novos melhorou demais graças a Lula, que trouxe o Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, IFRN e as cisternas para a zona rural. O povo daqui, em sua maioria, é grata a ele”, declarou.

Emoção

Aldemir Lemos, um dos fundadores do PT no Rio Grande do Norte, irmão do saudoso Rubens Lemos, primeiro candidato a governador pelo partido, falou em tom emocionado da visita da Caravana da Cidadania.

Era ele quem fazia a função de batedor, indo à frente da caravana durante todo o trajeto num Opala da cor preta da Chevrolet.

“A gente ia guiando por todas as cidades. O carro que ia puxando era a caminhonete de Mineiro, que tinha um som e ia anunciando a chegada de Lula. Por onde a gente passava, tinha sempre muita gente esperando ele”, contou.

Aldemir, chamado carinhosamente pelos companheiros de militância de “O Velho”, disse que um grupo acompanhou Lula até Mossoró num ônibus “caindo aos pedaços” do Sindicato dos Rodoviários. “Não sei como conseguiram chegar”, lembrou, aos risos.

Ele disse que a militância pagava o deslocamento por conta própria. O partido não entrava com nada, porque não tinha nem recursos para isso. “Nós passamos dois dias rodando o estado. A receptividade, em todo canto, era muito boa”.

Vilma Aparecida é outra que se recorda, emocionada, dessa peregrinação de Lula pelo Brasil, especialmente pelo Rio Grande do Norte. Primeira mulher e presidir no estado a Central Única dos Trabalhadores (CUT), fundadora e ex-presidente do PT e duas vezes candidata a vereadora em Natal, ela acredita que aquelas viagens deram “a base para ele, futuramente, governar com os interesses voltados para a maioria da população”.

“Lula conhece de perto o que vive nosso povo mais humilde, não só de ouvir falar. A caravana oportunizou conhecimento da realidade in loco, o contato direto com o povo, com a esperança do povo”, refletiu.

“A gente tem naquela caravana uma memória muito boa. Através dela, ele visitou os menores cantinhos do país, conversou com o povo, construiu uma base paro país que a gente queria”, completou.

Para a socióloga e educadora popular Vilma Aparecida, vivenciar aquela experiência “foi um momento de muita emoção e esperança”. “A gente estava num momento de crise do país. Então, Lula nos colocou algo novo ao dizer que era possível construir um país diferente, com justiça e inclusão social”.

Vilma acredita que essa nova caravana vai ser o começo do “resgate da esperança no país que queremos”. “Lula é uma figura emblemática. Ele voltar novamente a percorrer o país é uma forma de mostrar à população que a esperança ainda está de pé”, concluiu.

Fotos: Arquivo (Cedidas).