A execução da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ) repercutiu, nestas duas semanas, na mídia nacional e internacional, em atos de homenagem e reconhecimento da sua luta, em conversas cara a cara e nas redes sociais. O debate sobre a defesa dos direitos humanos e da democracia intensificou. A onda de “fake news” também ganhou força na busca de desmoralizar Marielle e enfraquecer a sua luta. Para ampliar e qualificar o debate sobre o tema, o nosso mandato dedicou esta nova edição do ComTextos com uma seleção de matérias e análises. Confira:

Onda de ‘fake news’ sobre Marielle Franco inunda a internet
O volume gigantesco de notícias e comentários sobre o caso Marielle Franco também produziu uma onda de informações desencontradas, falsas ou controversas sobre a vereadora assassinada no Rio. Ela e seu motorista, Anderson Gomes, foram mortos a tiros na noite de 4ª feira (14.mar.2018), no centro do Rio. Marielle tinha 38 anos. Entre os boatos espalhados estão o de que Marielle teria sido financiada pelo Comando Vermelho, teria sido casada com 1 traficante chamado Marcinho VP e que teria engravidado aos 16 anos. Uma dessas informações foi até compartilhada por uma desembargadora do Rio.

Marielle e a volta ao trágico-normal, por Aldo Fornazieri
A brutal execução da vereadora Marielle Franco provocou uma onda de choque emocional que atingiu praticamente todo o Brasil. O choque despertou forças anímicas de indignação, revolta, tristeza, compaixão, solidariedade e dor nos mais diversos setores sociais. Fora algumas manifestações hipócritas é de se crer na sinceridade dessas diversas manifestações sentimentais com o ocorrido. Com o início da nova semana, contudo, a onda de choque perde poder de propagação e as forças anímicas se enfraquecem e tudo voltará ao trágico-normal da sociedade brasileira.

A vida e a morte de uma voz inconformada
Os bares de Copacabana e da Zona Sul do Rio de Janeiro estavam lotados de torcedores que acompanhavam, pela tevê, a virada do Flamengo sobre o Emelec na Taça Libertadores. Também nas redes sociais o time carioca provava-se popular liderando o Twitter Trends Brasil na noite de quarta-feira. Em meio aos milhares de tuítes sobre os jogadores que decidiram a partida, um nome que nada tinha a ver com o jogo começou a subir no ranking de assuntos do momento: Marielle Franco. Aos poucos, o drama futebolístico dava lugar a uma tragédia emblemática.

“Marielle, presente”: a causa radical e sua apropriação pela mídia
É um vídeo forte, poderoso, cortante: sobre a imagem noturna e estática do temporal na cidade, as vozes se sobrepõem para falar que o Rio de Janeiro CHORAVA com a notícia de “mais uma mulher ASSASSINADA”; porém, “não apenas uma MULHER”, “mas uma mulher NEGRA”, “uma MILITANTE”, que movia estruturas e foi “EXECUTADA a sangue frio”, e apela: “GENTE, PAREM DE MATAR A GENTE, esse assunto é URGENTE. MARIELLE, PRESENTE”. O vídeo original termina assim. Mas, ao final do Jornal Nacional do dia seguinte à execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, numa ação que vitimou também seu motorista, Anderson Pedro Gomes, esse vídeo foi exibido com o acréscimo deste texto: “Esta homenagem a Marielle Franco foi feita por Ana de Cesaro e circulou na internet. Agora está sendo mostrada para todo o Brasil. Para que seja uma homenagem e também um alerta. Tudo começa pelo respeito. À vida”. Estudiosos de linguística e comunicação teriam aqui um prato cheio para discorrer sobre essa manobra discursiva muito óbvia.

Marielle Franco: um assassinato à procura de uma narrativa, por Jessé Souza
A falsa consciência, que permite a dominação simbólica/afetiva do oprimido pelo opressor, se materializa, hoje em dia e antes de tudo, na “fragmentação da consciência”. A consciência fragmentada é aquela que não reconstrói mais os vínculos de compreensão entre os fatos dispersos que observa. É como na nossa mídia venal. O problema não é apenas que se deixe de veicular as informações. O problema é que elas, quando veiculadas, o são sem qualquer conexão com a totalidade maior, que é o que torna qualquer fato singular compreensível.

Políticos e amigos de Marielle se curvaram à Globo como as vítimas de sequestro aceitam o abraço do sequestrador
Dois fatos chamaram a atenção no Fantástico de ontem: a canalhice da cobertura sobre a morte de Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes, e a atração que a emissora exerce sobre as pessoas que são vítimas dessa manipulação. Da esposa de Marielle ao deputado estadual Marcelo Freixo, todos se prestaram a dar entrevista à emissora como se estivessem diante da BBC. É uma reverência inexplicável, já que conhecem o poder de distorção da emissora, pois Marielle era uma das que mais combatiam a cobertura que a mídia tradicional faz dos eventos que envolvem os setores populares da sociedade.

O segundo assassinato de Marielle Franco
Quando um político é assassinado por sua própria condição de político, o assassino pretende algo mais do que matar uma pessoa. Quer acabar com suas ideias e, sobretudo, com seu direito a expressá-las. Se além disso ainda se trata de um cargo eletivo, as balas não são dirigidas apenas contra essa pessoa, mas contra todos aqueles que a elegeram para que as representasse.

O que Marielle Franco representa no Brasil de 2018
O assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) na noite de quarta-feira (14) gerou intensa comoção nas redes sociais e levou milhares de manifestantes às ruas de mais de dez cidades brasileiras no dia seguinte. Marielle foi morta a tiros, no centro do Rio, no trajeto de volta de um debate com jovens negras, dias após ter denunciado, nas redes sociais, a truculência de uma operação do 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio na comunidade de Acari. Presidente da República, pré-candidatos ao Palácio do Planalto e até deputados do Parlamento Europeu reagiram ao fato. A repercussão na imprensa internacional foi grande.

Irmã de Marielle Franco: “Só tinham essa forma de calar a minha irmã”
Quatro dias após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), a mobilização social nas ruas do país estava longe de ser silenciada. Na tarde deste domingo, dia 18, centenas de pessoas caminharam pela Linha Amarela, em frente ao Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, para protestar contra a morte da ativista. Empunhando faixas e imagens de Marielle, o grupo pedia justiça e gritava contra a tentativa de silenciá-la. Uma das vozes mais presentes desde a noite do crime, a irmã de Marielle, Anielle Franco, ainda tentava achar uma explicação para a barbaridade: “O que matou ela foi o que ela lutava. Ela lutava por tudo de minoria, ela era contra intolerância, preconceito, ela era contra racismo […] A pergunta que fica para mim é ‘por que mataram ela?’. Por que ela era negra, por que ela era favelada, por que ela defendia os pobres, os negros, os homossexuais? Eu não sei quem matou, mas eu sei que eles não esperavam, eu sei que o que levou a matar é que ela mexia em coisas que muita gente tinha medo de mexer.

“Se achavam que ela seria morta e calaria a boca, estão enganados”, afirma irmã de Marielle Franco
Aos 11, Marielle Silva começou a cuidar da irmã cinco anos mais nova, enquanto os pais trabalhavam. Ela defendia a caçula, única menina do conjunto habitacional onde moravam a gostar de vôlei. A bola, porém, lhe era negada pelos rapazes. Marielle não aceitava que fosse assim. Brigava, tomava a bola. “Ela dizia: ‘se minha irmã não pode jogar, ninguém mais vai'”, conta Anielle Silva, em entrevista à Carta Capital.

O assassinato político de Marielle Franco no país onde dizem que isso não existe . Por Nathali Macedo
Elegi “não existe morte política no Brasil” como minha lenda urbana predileta, ultrapassando com folga o manjado “não existe racismo no Brasil.” Há muito mais coisas na realidade geopolítica do que supõe a nossa vã filosofia, e ela é, de fato, tão sombria quanto parece ser: tão sombria quanto Alexandre de Moraes com olheiras e capa preta, tão sombria quanto as mãos vampirescas do presidente, quanto um Ministro morto num misterioso acidente de avião e uma vereadora executada em plena intervenção federal no Rio de Janeiro.

Entre os campos de Marielle
Sabemos que tem havido muita tensão entre os que afirmam não haver nada de novo na execução de Marielle Franco, vereadora da cidade do Rio de Janeiro, e os que buscam demarcar um ponto de virada na história, a partir do ocorrido. Os primeiros alertam para o fato concreto e indubitável de que, no Rio, a polícia mata pobre todo dia e que este pobre tem cor, gênero, origem, classe e libido: é preto, é mulher, é nordestino, é trabalhador, é viado. E é preciso compreender esta interseccionalidade entre pobreza e cada uma destas singularidades (cor, origem…).

Marielle, Herzog, Edson Luís: quando o luto vai às ruas
“Quem cala sobre teu corpo, consente na tua morte”. Desavisados não duvidariam de que o verso da canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos foi pensado para Marielle Franco, executada na noite da quarta-feira 14 por criminosos ainda desconhecidos. O desenrolar das investigações pode ou não apontar os culpados, mas a vereadora carioca do PSOL tornou-se “semente”, como o próprio partido definiu. Nos últimos dias, os atos de vigília a exigir esclarecimentos sobre a morte da parlamentar, especialmente os da quinta-feira 15, reforçam essa imagem.

Marielle e Monica, por todas as famílias
Na última quinta-feira, 15, embaixo do vão do MASP, enquanto milhares de pessoas começavam a se reunir para uma manifestação em repúdio ao assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), um microfone era revezado entre lideranças e militantes femininas. As falas emocionadas exigiam uma explicação do Governo, criticavam a intervenção militar no Rio de Janeiro, mas, principalmente, lembravam o legado de Marielle. Entre tudo o que foi dito, ficaram ecoando ao longo dos dias algumas palavras: mulher, negra, pobre e lésbica.

Apontadas como suspeitas pela execução de Marielle, milícias atuam no Rio sem serem incomodadas
Uma eminência parda controla territórios no Rio de Janeiro onde vivem mais de 2 milhões de pessoas. São as milícias, grupos formados por ex-policiais, bombeiros, militares, agentes penitenciários e também membros das forças de segurança ainda na ativa. A atuação destas organizações paramilitares voltou à tona após o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes no dia 14 de março. Embora a polícia ainda não tenha identificado nenhum dos assassinos, o nível de profissionalismo da emboscada e as reiteradas críticas feitas pela parlamentar à atuação da polícia e à intervenção federal jogam a suspeita sobre grupos milicianos. Especialistas ouvidos pelo EL PAÍS afirmam que nas últimas décadas muito pouco foi feito para controlar estes grupos, que colocam em risco a democracia nos territórios em seu poder e já elegeram vereadores e deputados estaduais.

O ódio que matou Marielle foi plantado pela mídia
De onde vêm o fascismo e a cultura do ódio que matou Marielle Franco, colocando a violência brasileira num outro patamar: o das execuções políticas? A resposta está na mídia brasileira, que, desde 2013, vem semeando uma campanha de ódio contra seus adversários políticos. No caso mais violento, Veja chegou a propor a morte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, numa capa em que exibia a cabeça de Lula cortada e ensanguentada. Era um plágio de capa semelhante da Newsweek, que exibiu a cabeça de Muamar Khadai, depois de seu assassinato.

Repositório da UFF disponibiliza dissertação de mestrado de Marielle Franco
A dissertação de mestrado de Marielle Franco, vereadora e ativista de direitos humanos assassinada esta semana no Rio juntamente com o seu motorista Anderson Gomes, se encontra disponível no repositório institucional da Universidade Federal Fluminense (RIUFF). Em sua dissertação de mestrado, intitulada “UPP – a redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro”, Marielle já avaliava que o modelo de segurança pública do Rio reforça o chamado Estado Penal, com foco na repressão dos mais pobres.

Vladimir Safatle: O tempo das execuções
Nesta quarta-feira (14), o Brasil se deparou com o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL). Militante dos direitos humanos, ativista negra e relatora da comissão da Câmara de Vereadores responsável pelo acompanhamento dos desmandos da intervenção militar, Marielle denunciara dias atrás execuções do 41º Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em Acari. Aterrorizando a população civil, o batalhão que mais mata no Rio teria executado dois jovens e jogado os corpos em uma vala. Dias depois, a vereadora foi perseguida por um carro que disparou nove tiros em seu veículo, sem roubar nada. Morreram ela e seu motorista.