Um mês depois de estrear no restante do país, o documentário “O Processo”, dirigido pela cineasta Maria Augusta Ramos, finalmente chega às salas de cinema de Natal. A estreia acontece nesta quinta-feira (21), às 19h no Cinépolis Natal Shopping. O filme retrata a trama política que culminou no golpe parlamentar da ex-presidenta Dilma Rousseff, afastada do cargo em 31 de agosto de 2016.

A estreia nacional ocorreu em meados de maio. Em fevereiro, o longa fez sua estreia mundial no Festival de Berlim, onde foi escolhido pelo público como o terceiro melhor documentário da mostra Panorama. O filme seguiu conquistando prêmios em festivais internacionais na Espanha (Documenta Madri), Portugal (Prêmio Silvestre e Festival Indie Lisboa) e Suíça (Festival Internacional de Documentários Visions du Reel em Nyon).

A exibição do filme em Natal se deve a uma intensa mobilização que reuniu o Cineclube Natal, Secretaria Nacional de Cultura do PT, Setorial de Cultura do PT-RN, Marcha Mundial de Mulheres e Ponto de Cultura Lula Livre. O documentário fica em cartaz até o próximo dia 27.

O ativista cultural Aluízio Matias contou que a articulação para que o filme fosse exibido em Natal começou pelo Setorial de Cultura do PT-RN. “Fizemos contato com a Secretaria Nacional de Cultura do PT, que fez um link com a distribuidora Vitrine Filmes. A partir daí, começou a negociação com a Rede Cinépolis”, detalhou.

Aluízio disse que a ideia era “fazer um evento alternativo, com exibição pública”, mas, devido à burocracia exigida, não foi possível. Para ele, o premiado documentário “ajuda a compreender melhor, com um certo distanciamento histórico, os acontecimentos de 2016”.

“O filme joga uma luz extremamente importante, direta e transparente sobre os acontecimentos de 2016. Ele conta a memória e a verdade sobre aquela tragédia política contra Dilma e o povo do Brasil”, declarou.

Kafkiano

“O Processo” faz referência ao livro homônimo do escritor alemão Franz Kafka, em que o personagem Josef K. é acusado, processado e condenado por um crime desconhecido, num julgamento orquestrado sem que lhe fosse dada nenhuma chance de defesa.

A evocação do clássico de Kafka serve ao propósito do documentário de Maria Augusta Ramos: além de investigar os bastidores do impeachment, o filme tenta demonstrar que não houve crime de responsabilidade que justificasse juridicamente a destituição de Dilma Rousseff.

Maria Augusta Ramos construiu uma narrativa tomando como base apenas a observação. Para isso, filmou 450 horas de material durante vários meses em Brasília, circulando com sua equipe pelos corredores do Congresso Nacional, onde registrou desde coletivas de imprensa a votações na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

Não há entrevistas, intervenções nos acontecimentos nem didatismos narrativos, como locuções, animações ou infográficos. A aposta da diretora é exclusivamente na força da história que está sendo contada, em que a sucessão dos fatos fala por si.

O espectador é conduzido por uma narrativa crua, sem apelos emocionais, sonoros nem estéticos. A câmera segue de perto os agentes da ação nas mais diversas esferas, como um observador em primeira pessoa, desde o recebimento da denúncia na Câmara dos Deputados, num ato de vingança do seu então presidente Eduardo Cunha (MDB-RJ), até a votação final que destituiu Dilma do cargo em 2016.

Embora imparcial, o documentário não finge se distanciar do tema, cujos desdobramentos ainda impactam a vida brasileira. Os acontecimentos de 2016 adquirem um novo significado em 2018. A experiência do pós-golpe é uma realidade, materializada na ascensão ao poder de Michel Temer, levado ao cargo graças ao “grande pacto nacional, com o Supremo, com tudo”, revelado pelo senador Romero Jucá (MDB-RR).