Por Adriano de Sousa / Com fotos de Brunno Martins

Na primeira vez que vi Titina Medeiros, ela ainda era Izabel Cristina, aquela galega linda ali, com o zói de briba, agachada sobre o lajedo que nem uma onça prestes a saltar sobre você. Tinha 16 anos, ia ser secretária na redação de uma revista semanal e fugaz, mas trazia na ponta da língua o desejo que a conduziria até essa cena do espetáculo Meu Seridó:

– Eu quero ser de teatro.

O verbo visceral no centro da frase não é para qualquer um. Carrega identificação que vai muito além da mecânica do ofício. E explica também a nova peça, que estreia nesta quinta-feira (30), às 18h, no Tecesol (Neópolis). Uma viagem que leva Titina de volta a Izabel Cristina e às cidades de Acari e Carnaúba dos Dantas, fontes primordiais do seu Seridó.

– Queria uma coisa que eu dizia que era voltar pra casa, botar uma mochila nas costas. Quarenta anos… Me veio um desejo de alpendre, da zona rural, de encontrar os meus, fazer o caminho de volta.

De muitas voltas. Ao teatro de rua, simples, portátil, onde Titina começou; ao Seridó elemental, mítico, encenado no prólogo, com o sol e a chuva disputando a alma da terra; à história da região, revisada com leveza em outras dualidades que desdobram o confronto primordial: branco x índio, macho x fêmea, tradição x contemporaneidade. A peça vai buscar, sob as camadas de clichês e convenções culturais, um Seridó feminino e caboclo, ausente nas narrativas produzidas sobre a região.

– O seridoense tem essa coisa de dizer que é branco, como se na região só tivesse branco. Tem branco, sim, e tem muito mestiço também. Mas a elite não vai falar do caboclo, não vai falar da questão do feminino. Conversando com Paulo Balá [o historiador Paulo Bezerra], ele disse pra gente que a mulher, não, a mulher não teve vez na história do Seridó. Mas teve e tem. A pesquisa histórica para a peça revelou coisas como o papel das mulheres como educadoras. Enquanto os homens estavam na lida, elas cuidavam da educação – ressalva Titina.

A pesquisa da historiadora Leusa Araújo sustenta a peça junto com as personagens apresentadas ao autor Filipe Miguez nas viagens ao Seridó. Uma delas é Chiquinha do Catururé, tia de Titina, cuja voz acentua ‘o lugar do feminino’ no texto. O ator e compositor Caio Padilha, que assina também a direção musical da peça, conta que a leitura do livro de memórias de Tia Chiquinha foi um ponto de virada na dramaturgia de Meu Seridó:

– Ela trouxe um olhar que não era do homem branco, português, machista, mas de uma matriarca, uma mulher que foi agricultora. A dramaturgia estava indo na direção dos grandes homens, mas de repente deu de cara com aquela senhora bem-humorada, com um olhar feminino sobre tudo. Ela trouxe pra frente uma voz que esteve sempre por trás. A gente ouve o tempo todo a voz da mulher no espetáculo.

Teatro de rua

Meu Seridó foi concebido inicialmente como um solo que coubesse na mochila de viagem de Titina, para ser representado na rua. Mas a atriz percebeu que precisaria de mais gente para carregar tantos Seridós. Nem todos couberam no texto que narra o povoamento da região, o extermínio dos índios, a apropriação do território pela pecuária, a conformação da cultura derivada dessa matriz econômica.

A peça mapeia a genealogia da própria Titina, ao contar a origem dos troncos familiares mais frondosos na região. A história e o mito, a poesia e o humor alternam-se em cena.

Meu Seridó está entre a realidade, o delírio e a nostalgia. Ele ocupa na minha história como atriz o lugar do teatro popular, que é onde nasço. Eu quero ir pro alpendre, pro terreiro, contar histórias, com um teatro simples, mas não simplório, bem feito, que encante e se comunique diretamente com as pessoas.

Aos 40 anos, Titina Medeiros tem a idade da paixão preservada. Subsiste intacto o encantamento com a peça O Pranto de Maria Parda, encenada no Teatro Alberto Maranhão pelo grupo português A Barraca, no início dos anos 1990. A epifania despertou o desejo visceral de ser do teatro. Uma identificação que nem mesmo a projeção como atriz de novelas globais consegue abalar. O essencial de representar, diz Titina, está no teatro:

– Eu quis ser atriz quando vi aquela peça, na primeira vez que eu entrei num teatro. Só estar ali já foi mágico. Quando eu entrei, a luz estava baixa, parecia uma miragem, você não entende a forma das coisas direito. Deu o sinal de início, e eu vi o saco de batatas que estava no palco começando a se mexer. E de repente aquele saco era uma atriz, uma única atriz, que contou uma história. Era o encantamento, a mágica do teatro. Ali eu falei: achei o que eu quero fazer da minha vida. De lá pra cá, eu nunca duvidei.

 

Além de Titina e Caio Padilha, o elenco de Meu Seridó tem Nara Kelly, Igor Fortunato e Marcílio Amorim, revezando-se entre várias personagens. A direção geral é de César Ferrário, com design de luz de Ronaldo Costa, cenário de Rogério Ferraz e figurino de João Marcelino. A temporada de rua em Natal começa amanhã e vai até 17 de dezembro. Veja a seguir o roteiro das apresentações gratuitas, sempre às 18h:

01/12 – Casa do Mestre Manoel Marinheiro – Felipe Camarão
02/12 – Praça da Igreja – Cidade Esperança
03/12 – Praça André de Albuquerque – Cidade Alta
14/12 – Espaço Cultural Jesiel Figueiredo – Gramoré
15/12 – Área de lazer do Panatis – Panatis
16/12 – Praça Henrique Carloni (Disco Voador) – Ponta Negra
17/12 – Praça Pedro Velho – Petrópolis