Por Daiane Nunes | Foto: Luciano Azevedo

Nascida no bairro das Rocas, reduto do samba potiguar, a cantora e compositora Valéria Oliveira vai lançar oficialmente seu novo CD “Mirá” na próxima quinta-feira (03), no Teatro Riachuelo. Os ingressos são gratuitos e já podem ser adquiridos online ou na bilheteria do teatro, no dia do show.

“O disco reflete um bocado de vivência e memórias pessoais, traz alguns temas espinhosos, contemporâneos, mas intercalados por sambas que falam de amor, de leveza, de esperança – o que tanto almejamos nesse momento brasileiro”, disse a artista.

Com 30 anos de carreira, a potiguar cresceu ouvindo vários ícones da música nordestina como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Terezinha de Jesus e Elino Julião. Diz ter influência também de Clara Nunes, Caetano Veloso e João Bosco.

A cantora atribui como um dos principais fatores do seu crescimento as parcerias que construiu ao longo da sua trajetória. Atualmente é reconhecida nacionalmente e já realizou turnês fora do país também. “Mas ainda há muito o que fazer, os brasileiros precisam despertar para a arte do Rio Grande do Norte”, defendeu.

Confira a íntegra da entrevista com Valéria Oliveira sobre o seu novo trabalho, trajetória, influências, parcerias e visão do cenário musical atualmente:

01. Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória nestes 30 anos de carreira. Como foi o início do seu trabalho e quais foram os desafios?

VO – As coisas foram acontecendo desde o início com muita naturalidade. As oportunidades de tocar com músicos e produtores potiguares foram surgindo junto com o aprendizado do primeiro disco.

Em 2000, veio o convite para o Japão. Isso me exigiu uma disponibilidade geral para aprender e saber transitar em um espaço cultural muito diferente do nosso, respeitando as regras do país. Foi lá onde conheci Kazuo Yoshida, que produziu 4 discos meus.

Depois veio outro grande desafio, o de me expor como compositora. Instigada por compositores potiguares amigos, fui amadurecendo aos poucos a escrita e as linhas melódicas. Vieram então os discos majoritariamente autorais como o “Leve só as Pedras” e “No Ar”. Na sequência, apresentações em turnês brasileiras, viagens internacionais e, com elas, o contato com outros idiomas e culturas.

Outro momento ímpar pra mim foi a produção do disco “Em águas claras”, em homenagem a Clara Nunes. Foi ele que clareou de fato minha relação com a música brasileira e que me instigou a pesquisar sobre o trabalho de vários compositores ligados ao samba. Me permitiu, também, aprender com grandes mestres como o Rildo Hora, com quem passei a ter contato a partir de então.

Agora estamos aqui, prestes a lançar um novo trabalho recheado de muitas dessas vivências e da musicalidade de talentos do nosso estado como Jubileu Filho e de todos que dele fazem parte. Cada novo passo que a gente dá na vida rumo ao desconhecido é um desafio. A gente se joga na criação assumindo todos os riscos dessa entrega.

02. Você conseguiu mostrar que tem talento e, agora, é uma artista (re)conhecida nacionalmente. Realizou turnês, inclusive, fora do país. Como foi essa sua inserção no mercado nacional?

VO – Fruto de muito trabalho e da competência de grandes colaboradores que estiveram comigo nessa trajetória: compositores, músicos, arranjadores, diretores, técnicos, apoiadores e, especialmente pela ousadia da minha produtora, Mônica Mac Dowell, de buscar esses espaços. Por mais talento que a gente tenha, ainda é muito difícil fazer com que o nosso trabalho saia dos limites do estado. Por isso, trabalhar com uma equipe que entenda nossa dinâmica de trabalho e contribua com nossas ideias artísticas é muito importante. Mas ainda há muito o que fazer, os brasileiros precisam despertar para a arte do Rio Grande do Norte.

03. Quais são as suas influências musicais e como você vê o cenário musical atualmente?

VO – São muitas. Desde grandes intérpretes de samba como Clara Nunes, que me fez abrir um parêntese para um projeto especial em minha carreira, a compositores da chamada MPB como Caetano e João Bosco. Cresci ouvindo Zé Ramalho, Elba, Geraldo, Fagner, Terezinha de Jesus, Elino Julião e vários outros ícones da música nordestina. No período que viajei para o Japão, cantei muito Bossa Nova e mostrei o baião aos japoneses gravando, por exemplo, o disco “Imbalança”. Outros que conheci na década passada influenciaram a sonoridade dos meus trabalhos em outra fase da minha vida musical como Cibelle e Regina Specktor. A força e a beleza da música de Chico César e Cátia de França são alimento!

Apesar da superprodução musical, impulsionada ao meu ver pelas novas possibilidades tecnológicas, tem muita gente boa no cenário nacional fazendo música personalizada, deixando um legado de rompimento de barreiras e paradigmas, trabalhando bem com fusões, investindo em suas carreiras e trazendo ainda mais vitalidade à música brasileira. E tem muita gente da minha geração e de gerações anteriores à minha atualizando tudo, contracenando com esse tempo. Pra mim isso é muito inspirador!

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04. Como se deu a construção do seu novo CD Mirá e qual a mensagem que ele busca trazer?

VO – Tudo começou em 2015 com a apresentação em shows de um repertório quase todo autoral e inédito, que levou a uma pré-produção seguida da produção de “Mirá”. O processo se deu em um tempo maravilhoso, sem correrias, com a tranquilidade necessária para cuidarmos bem do disco. Acho que estou mais inteira do que nunca nesse trabalho.

Gravei pela primeira vez inéditas de compositores consagrados e que eu admiro muito que são Fátima Guedes e Moacyr Luz. E acabei conhecendo o Délcio Luiz por meio da sua parceria com Moacyr.

Tive o privilégio de contar mais uma vez com profissionais como Rildo Hora e Jubileu Filho, numa conexão maravilhosa, super harmoniosa, entre Rio e Natal, e com o trabalho espetacular de Eduardo Pinheiro do estúdio Megafone.

Pude firmar novas parcerias com compositores potiguares como Ivando Monta e Vinícius Lins e retomar outras com Luiz Gadelha e Simona Talma. Gravei um samba de Rico Dias, compositor que está começando a aparecer. Então foi tudo lindo. Amém!!!!

O disco foi incentivado pela Lei Câmara Cascudo com patrocínios do Governo do Estado e da Cosern.

O disco reflete um bocado de vivência e memórias pessoais, traz alguns temas espinhosos, contemporâneos, mas intercalados por sambas que falam de amor, de leveza, de esperança, o que tanto almejamos nesse momento brasileiro.

05. Seus trabalhos trazem também parcerias com músicos e produtores de renome. No lançamento de Mirá, por exemplo, você estará acompanhada por nomes de peso da música potiguar. Como tem se dado essa colaboração?

VO – O show é dirigido por Jubileu Filho, um craque daqueles, um amigo querido e um companheiro de trabalho agregador. Cada músico nessa banda tem um papel importantíssimo. Muitos deles participaram do processo todo de concepção do disco como Sérgio Groove, Raphael Almeida, Aluízio Pizão e Anderson Pessoa, então a coisa já está na veia. E os que estão chegando como Diogo Guanabara, David do Pandeiro e Cicinho estão sendo contaminados por essa vibe boa de música e energia. Além dos grandes músicos e os vocalistas Michele Lima e Rafael Barros, conto ainda com uma equipe maravilhosa, que já colaborou comigo em muitos trabalhos como o grande mestre João Marcelino, Eduardo Pinheiro, o ator e iluminador Rogério Ferraz e parcerias super importantes como a assessoria de imprensa da Sollar Comunicação, mídias sociais da Pinote e toda a parte técnica de palco da Guria Produtora, parceira de longuíssima data.

O clima está maravilhoso e vocês vão poder conferir tudo isso no palco!

06. O lançamento do show vai contar com uma iniciativa de inclusão muito importante que é a tradução para libras e espaço reservado para as pessoas com necessidades específicas (surdos). Como se deu essa ideia?

VO – Essa foi uma ideia da minha produtora Mônica Mac Dowell que traz essa vontade de inclusão na alma, no sangue. Ela sempre foi ligada ao social e demonstrou isso em diversas ocasiões. Nos conhecemos quando o Projeto Retrovisor, do qual fiz parte, participou de ações da ONG Natal Voluntários. Desde de que passamos a trabalhar juntas, nossos projetos têm visado à democratização do acesso com a distribuição de ingressos sociais e promovido a divulgação de campanhas de interesse público, a realização de oficinas musicais, entre outras iniciativas onde podemos unir o social à cultura.

A gente já teve essa experiência de tradução para Libras no show Quem Segura Essa Onda e confesso que fiquei pasma, emocionada com essa possibilidade de comunicação, de poder compartilhar o meu trabalho com esse novo público. Adriel Kelvin, o tradutor, é incrível! O trabalho dele é lindo, vocês precisam conferir.

No show de lançamento do CD, em parceria com o Projeto Acesso Libras, procuraremos melhorar o atendimento para as pessoas com necessidades específicas com a tradução dos vídeos e outras ações em planejamento junto com o Projeto.

Tomara que muitos outros artistas possam incluir esse tipo de ação em seus shows!!!