Por Vlademir Alexandre (fotógrafo)

O Rio Grande do Norte teve grande ícones sociais, homens e mulheres que saíram do lugar comum, romperam com paradigmas e estruturas preestabelecidas para fundar, senão uma postura progressista, uma marca que se estabelece além do óbvio.

Pensadores, poetas, escritores, músicos, pintores e fotógrafos estão propensos ao desejo no novo, da criação e da entrega a possibilidades de contar uma nova história.

Me parece que o fotógrafo José Ezelino da Costa, nascido em Caicó, deixou sua alcunha temporal marcada pela arte fotográfica. Ao ouvir falar de sua exposição, fui ao encontro dessa história.

Provavelmente a falta da preservação de toda sua obra nunca nos permita o encontro com a maior parte da contribuição de uma vida. Porém, o que está proposto nesta mostra de seu acervo se constitui num primoroso ambiente de encontros marcados pelo tempo, e por desafios sociais que transpõem os séculos.

A imaginação é a mola propulsora para viajar ao tempo de José Ezelino. Tempo em que um homem negro, músico, filho de escrava alforriada em uma região dominada pela cultura branca, não devia ter muita visibilidade. Foi rompendo com estes preceitos que ele iluminou sua fotografia, negra de essência, talvez o primeiro documento sóciocultural do Rio Grande do Norte sobre a negritude em tempos de coronelismo e raízes eurocêntricas.

A estética requintada e a luz distribuída com uniformidade transmitem um sentimento de empoderamento do retratado. Fundos pintados à mão e uma riqueza de acessórios completavam o universo simbólico que a fotografia de José Ezelino propunha. Mas são sem dúvida os personagens de pele negra, retratados por ele de forma igual em uma sociedade que ainda experimentava a quebra da escravidão, que trazem uma sutil manifestação de raça em sua fotografia.

A curadora Ângela Almeida, artista plástica e fotógrafa, contou de um processo de encantamento ao descobrir, quatro anos atrás, esta obra que agora ela compartilha — graças aos parentes de José Ezelino e aos esforços de entidades que acreditaram em uma iniciativa que não só faz a fotografia de uma Caicó de tempos idos, se permitam voltar a envolver o imaginário coletivo, mas, provoca uma releitura, desafia novas formas e entrega ao desafio das cores.

Os frutos desse belo trabalho de resgate e transformação estão na exposição e em um livro com um acabamento que parece se fundir à história dessa fotografia de épocas.

A minha dica é que você aprecie com olhar de quem vai ao íntimo de cada imagem, e que navegue nesse mar de temporalidades expostas.

 

SERVIÇO

.Mostra “Quando a pele incendeia a memória: nasce um fotógrafo no sertão do século XIX”, de José Ezelino da Costa. Até 28 de setembro, no 2o. piso do Natal Shopping