É ali, em volta de uma mesa de plástico, dessas que se vê em qualquer bar da cidade, alternando um gole de cerveja com uma tragada de cigarro, na tradicional Confeitaria Atheneu, que o jornalista, escritor e editor natalense Mário Ivo Cavalcanti fala sobre seu novo livro “Sumidouro do Espelho”, cujo título faz referência a um verso da música “Catavento e Girassol”, de Aldir Blanc e Guinga. O mormaço do fim de tarde parece combinar com a atmosfera da obra, que ele classifica como “uma história de todos nós”. “Eu sempre digo que a gente se inspira na ficção para viver uma realidade”, filosofou.

Esse é o quarto livro de Mário Ivo Cavalcanti. O autor disse que a obra nasceu “quase pronta”, enquanto ele escrevia outros dois livros paralelamente. Em meio a esse processo, surgiu a ideia de usar fotografias, misturando ficção e realidade, para criar o enredo. Foi quando, finalmente, nasceu “Sumidouro do Espelho”.

“De repente, esse livro surgiu, inexplicavelmente, meio que pronto. Eu acredito que se eu não estivesse escrevendo os outros dois, não teria escrito esse tão rapidamente e satisfatoriamente para mim mesmo”, contou.

Mas, afinal, o que Mário Ivo quer nos dizer com seu “Sumidouro do Espelho”? O livro, segundo classificou o escritor paulista Reinaldo Moraes, “é uma história de amor bandido, de zoeira lírica e da mais fina sacanagem”. É o enredo de um casal que se conhece, mas, como os dois moram em cidades diferentes, se encontra somente mais duas ou três vezes e se comunica com ajuda do Skype.

“Eles tentam se encontrar, terminam se encontrando outras duas ou três vezes, mas as coisas não funcionam muito bem como eles gostariam”, explicou, sem dar muitas pistas sobre sua narrativa.

O aspecto efêmero da relação transparece na própria estética do texto, que transporta para o livro o formato das mensagens trocadas pelo casal através do Skype. À primeira vista, a obra lembra uma fotonovela do início dos anos 2000, com todos os elementos característicos do estilo: amor, paixão, prazer, separação, ciúmes e, por que não?, erotismo.

O erotismo presente no livro, segundo Mário Ivo, não é “nada de outro mundo”. “É aquele erotismo do dia a dia de todos nós. Todo mundo meio que fala e pensa em sacanagem. Eu sou muito crítico comigo mesmo, mas achei que o livro saiu muito fluido, muito espontâneo. Eu sou suspeito para dizer, mas acho que ele tem uma qualidade literária, apesar da aparente banalidade. Não tem muita firula. É a linguagem normal que a gente usa”.

“Sumidouro do Espelho” é o terceiro livro lançado pelo selo “Livros de Papel”, criado há quase um ano por Mário Ivo. Ele disse que decidiu se lançar nessa nova empreitada pelas dificuldades do mercado jornalístico, mas também para aproveitar sua experiência de editor para “publicar novos autores, como uma possibilidade a mais de trabalho, sem grandes pretensões”.

“No Brasil inteiro, até mesmo escritores consagrados estão apostando nas pequenas editoras, porque as grandes ficaram grandes demais. Termina virando uma visão muito mercantilista das coisas, sem identidade. Você tem limites com isso, mas atinge nichos de mercado”, comentou.

Mário Ivo observou que lançou sua editora no ano passado, naquele que considera o pior momento do país, em meio a uma crise generalizada que culminou com o golpe contra a presidente Dilma Rousseff (PT). “Isso acaba fazendo com que a gente coloque um pé no freio”, admitiu.

De repente, quando ele contava como abandonou o curso de medicina para fazer jornalismo, já com a pretensão de se tornar escritor, a conversa é interrompida por Dona Sílvia, proprietária da Confeitaria Atheneu, que gentilmente pergunta se precisamos de “mais alguma coisa”. Em seguida, quando nosso escritor faz pose para ser clicado pelo fotógrafo Vlademir Alexandre, Dona Sílvia, antes mesmo de ver as fotos, se arrisca a soltar um “tá bonito”. Mário Ivo, meio sem jeito com o elogio, agrade à simpática anfitriã.

SERVIÇO

Lançamento do livro “Sumidouro do Espelho”

Onde: Confeitaria Atheneu (Petrópolis – Natal) / 18h