Por Gabriela Olivar | Fotos: Vlademir Alexandre

Às vezes choro
Às vezes rio
Às vezes mar.

Carito

A poesia faz parte da vida e dos dias do potiguar Carito Cavalcanti, artista multimídia de 53 anos que faz da sua intuição inspiração para criar textos, sons e imagens. Quem convive com o poeta sabe da sua maestria ao usar as palavras, fazer trocadilhos e, com eles, expressar os olhares sobre a existência. “Entendeu ou quer que desenhe?”, seu mais novo trabalho, traduz de alguma forma esse sentimento, e será lançado no próximo sábado (19), no Ateliê Flávio Freitas, na Ribeira velha de guerra.

Desde que lançou “Atestado de Órbita”, seu primeiro livro “solo”, em 2012, Carito intensificou a produção poética, de forma contínua, sistematizada, em um exercício quase diário. “Procuro sempre ficar em estado de alerta, prestando atenção aos sinais. Isso faz parte do meu processo criativo. Sou muito intuitivo. E tudo pode ser matéria-prima para o surgimento de um poema. Inspiração e principalmente transpiração”, disse.

Com a boa repercussão de “Atestado de Órbita”, o artista se sentiu ainda mais estimulado a escrever. “Também passei a me envolver mais no meio literário, entrando oficialmente para o ‘elenco’ da editora Jovens Escribas, participando de projetos como o ‘Ação Leitura nas Escolas’ etc”, lembrou. “‘Entendeu ou quer que desenhe?’ foi uma consequência natural desse processo”.

Para Carito, as redes sociais, especificamente o Facebook e o seu blog, também contribuíram para esse exercício poético, porque ele recebe, nesses espaços, o feedback do que publica. “Acho que isso tudo criou em mim uma espécie de endorfina poética, deu uma liga, deu uma onda boa. Entrei em uma espécie de transe, em um ‘estado de poesia’, como diz Chico César”. Foi aí que teve a ideia de convidar o artista Flávio Freitas para ilustrar o livro.

Parceria com o amigo-irmão

Carito e Flávio mantêm amizade desde os tempos da faculdade de Arquitetura, sendo parceiros de várias maneiras. “O título é uma brincadeira com essa história das pessoas pedirem para o artista explicar sua obra. Acontece com Flávio, acontece comigo, com muitos artistas. Então o título é uma tiração de onda. Porque eu digo que na verdade Flávio piora o meu poema [risos]”, brincou. “Como a ilustração dele é uma interpretação livre, então não necessariamente explica o poema. É uma onda mais pra Tom Zé: ‘Eu tô te explicando pra te confundir’”.

Humor e ironia estão presentes no livro. Carito brinca com as palavras, Flávio com as ilustrações. Mas é uma brincadeira séria. “Considero o livro uma obra existencialista. O paradoxo faz parte do livro. O paradoxo tem muita importância pra mim e pra Flávio”, resumiu. Carito sempre busca uma investigação de linguagens e trabalhar com várias delas. “Me considero um dublê de possibilidades, e esse trabalho é uma continuidade disso. A diferença nesse livro é a presença de Flávio, que dá categoria à navegação das ideias. Então posso dizer que esse livro é um barco. Um barco in-Flávio”.

Ser artista multimídia no RN

“É foda. É sofrido e prazeroso ao mesmo tempo. É difícil viver só de arte. E isso não é só aqui. E isso não é nenhuma novidade”, desabafou Carito, sobre ser artista multimídia no estado. “Mas quando a pessoa nasce pra isso não tem jeito. É a natureza de cada um. Fazer arte pra mim é uma necessidade fisiológica”, declarou.

Carito conta que houve uma época em que se afastou do fazer artístico em busca de outras possibilidades de sobrevivência, mas acabou tendo a “síndrome da abstinência artística” e pagou um preço alto. “Nem sempre é do jeito que a gente quer, mas eu tô sempre tentando contrabandear poesia em todas essas linguagens que transito. Eu tenho complexo de épico: por mais simples que seja um vídeo, eu quero que ele seja um filme”.

Carito, que é cineasta, poeta, letrista, músico, compositor, fotógrafo, ator, performer e arquiteto, diz que “um poeta não fica cansado, ele fica exausto” e que viver assim “às vezes é um desespero, às vezes é uma festa, às vezes é uma fresta”. “E a gente vai entrando, se fazendo de doido pra melhor passar”, brincou.

Serviço

Lançamento do livro “Entendeu ou quer que desenhe?”
Onde: Ateliê Flávio Freiras (Av. Duque de Caxias, 182, Ribeira, Natal)
Hora: 16h às 22h
Entrada gratuita

Onde comprar: No lançamento, nas livrarias da cidade e pelo site da Jovens Escribas