Estar aqui não é / para quem ficou / é para quem fugiu / e levou pouco / no estojo de oiro / de duas caixas / de sapato vazias / onde ali deitou / par de cadarços / caso não soubesse / andar sobre rolimãs / e precisasse seguir / com as fuças / rente ao piche, adverte Muirakytan Kennedy de Macêdo num dos 52 poemas de Mar Interior, que será lançado nesta quinta-feira (5), às 19h, no Temis Bar, em Natal.

O livro reúne ainda uma dúzia de desenhos assinados pelo poeta e é o segundo título literário na bibliografia inaugurada com livros de História que descortinaram novas leituras do Seridó potiguar, chão de Muirakytan.

            Mar Interior foi editado pela Flor do Sal, com projeto gráfico de Daniel Duarte e foto do autor por Carito Cavalcanti. A tiragem é de 200 exemplares e o preço de venda é R$ 30,00. O Temis Bar fica na sede do América Futebol Clube (avenida Rodrigues Alves com a rua Maxaranguape, no Tirol).

Leia a seguir o texto de apresentação do livro.

O K DA POESIA     

Quem leu A Penúltima Versão do Seridó e Rústicos Cabedais, dois livros indispensáveis à compreensão do Seridó e de sua projeção sobre o Rio Grande do Norte, sabe que a firma do professor-doutor Muirakytan Kennedy de Macêdo sempre se dedicou simultaneamente aos negócios da história e da poesia. Sem ceder à tentação excludente a que se rendem, por mecanismo de defesa ou cerebração de vaidade, tantos acadêmicos inclinados à poligrafia. Para eles, é questão de honra o desdobramento da personalidade autoral, com o requinte da heteronímia ou a mera distinção estilística, demarcando o que é do acadêmico e o que é do literato.

No caso dos historiadores em geral, separar é trair a gênese da disciplina, que nas calendas era um gênero literário, com direito a musa própria. No caso específico de Muirakytan, a separação seria inadmissível também pelas características de sua escrita científica, em que as cintilações literárias convivem em harmonia com o substrato analítico. O resultado são livros acadêmicos escritos em língua de gente – e gente talentosa, que estetiza o texto para ampliar sua substância expressiva, não para adjetivá-lo.

Quem não conheceu a poesia esparsa na obra do historiador pode degustá-la inteira na Partícula Elementar de estreia e neste Mar Interior, assinados por muirakytan k macedo. Ao manter a firma, em minúsculas irônicas, o poeta ressalta o que já se assinalou: não há paralelismo autoral no que ele escreve. Escrevendo poesia ou história, o que conta é o prazer com a palavra e o respeito ao princípio ético que rege todo ofício: fazê-lo bem. De preferência, refletindo sobre o fazer, como uma disciplina de aperfeiçoamento constante.

O ‘lugar de fala’ do senhor k é o do poeta-crítico, que a mudernage criou e a pós-mudernage institucionalizou. Escrever sobre o escrever tornou-se um dever de casa incontornável, até para preservar a palavra como matéria-prima da poesia nesse tempo ‘transmídia’ e conjurar a tentação de sonegar ao texto o status de território natural da linguagem.

A característica adicional desse poeta é propor algo além da adesão automática decorrente da empatia emocional. O interesse do/pelo poema envolve outras áreas de contato, negligenciadas pelo leitor que se identifique apenas com dores, amores e humores de circunstância. A poesia do senhor k entrega a cota de emoção que se espera da boa poesia, mas descarta o facilitário. Ela pede ao leitor que dê um pouco mais; de preferência, o melhor de si – informação, memória, intuição, sensibilidade, inteligência – para completar o poema. (Adriano de Sousa)