Das nove capitais do Nordeste, Natal se destaca como a cidade mais violenta ao longo da vida das mulheres, em termos de violência emocional, com prevalência de 34,82%. Em termos de violência física, ela ocupa o segundo lugar no ranking com 19,37%. A capital potiguar está, ainda, em terceiro lugar em violência sexual (8,38%).

Os dados são de uma pesquisa inédita apresentada nesta quinta-feira (23), na Casa da ONU em Brasília, faz ligação da violência doméstica no Nordeste brasileiro, com foco entre gerações, vulnerabilidades raciais e socioeconômicas e incidência sobre a saúde, direitos sexuais e direitos reprodutivos das mulheres. A divulgação marca a campanha dos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

Natal é destaque negativo também em violência doméstica durante a gravidez. Cerca de 12% das mulheres potiguares entrevistadas, que tiveram alguma experiência de gravidez ao longo da vida, já foram agredidas fisicamente pelos seus respectivos parceiros. Essa taxa de prevalência é quase três vezes maior do que a menor taxa, correspondente à Aracaju (4,3%).

A proporção de mulheres que tiveram sua saúde mental afetada em virtude do comportamento violento do parceiro, em Natal, é de 40% – o que lhe garante o terceiro lugar no ranking do Nordeste.

O estudo foi realizado pela Universidade Federal do Ceará, Institute for Advanced Study in Toulouse e o Instituto Maria da Penha, em cooperação com a Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres, com apoio do Instituto Avon e parceria de divulgação da ONU Mulheres Brasil. A pesquisa tem três relatórios executivos: condições socioeconômicas e violência doméstica e familiar (dezembro, 2016)| violência doméstica e seu impacto no mercado de trabalho e na produtividade das mulheres (agosto, 2017) | violência doméstica, violência na gravidez e transmissão entre gerações (outubro, 2017).

Vulnerabilidades raciais
O mais recente estudo Violência doméstica, violência na gravidez e transmissão entre gerações, que está sendo divulgado durante os 16 Dias de Ativismo, aponta que entre as mulheres que sofrem agressões físicas durante alguma gestação ao longo da vida (6% no universo de 10 mil mulheres), 77% são mulheres negras. Além disso, 24% das mulheres negras vivenciaram a ocorrência de violência doméstica contra suas mães, enquanto a mesma situação foi vivenciada por 19% das mulheres brancas.

Impacto no mercado de trabalho e produtividade – Os resultados do relatório Violência Doméstica e seu Impacto no Mercado de Trabalho e na Produtividade das Mulheres mostram que as mulheres vítimas de violência doméstica no Nordeste, nos últimos 12 meses, 23% recusaram ou desistiram de alguma oportunidade de emprego nesse mesmo período de referência porque o parceiro era contra. Enquanto isso, 9% das mulheres não vitimadas pelos parceiros reportaram ter recusado alguma oportunidade de emprego.

Mulheres vítimas de violência domésticas, nos últimos 12 meses, reportam menor frequência no exercício de sua capacidade de concentração, na capacidade de dormir bem, em tomar decisões, além de se sentir frequentemente estressada e menos feliz em comparação as mulheres não vitimadas pelos parceiros.

Para a região Nordeste, mulheres vítimas de violência doméstica apresentam uma duração média de emprego 21% menor do que a duração daquelas que não sofrem violência e possuem um salário cerca de 10% menor do que aquelas que não são vítimas de violência. Ser vítima de violência doméstica se correlaciona negativamente com a produtividade e o salário-hora da mulher, e esse efeito é maior em mulheres negras.

Saúde e bem-estar
Os dados mostram que 7% das mulheres agredidas durante a gestação têm entre 15 a 24 anos. As agressões em todas as fases da gravidez foram verificadas em 34% das entrevistadas (6% no universo de 10 mil mulheres). Os dados revelam implicações para a saúde das mulheres, incidindo sobre os seus direitos sexuais e direitos reprodutivos, e das crianças, trazendo novos elementos para a resposta do Brasil para o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3: Saúde e Bem Estar.

As mulheres se tornam vulneráveis à depressão, estresse, comportamentos de risco com uso de drogas lícitas e ilícitas, pré-natal inadequado, sangramento vaginal, ganho de peso, hipertensão, pré-eclâmpsia, entre outras intercorrências e enfermidades. Em relação à criança, estudos da área indicam restrição de crescimento uterino, curta duração, redução de peso da criança ao nascer, 0,9% a mais de probabilidade de morte ao nascer e até 1,5% a maior de probabilidade de morte até o 5º ano de vida.

Espiral da violência de gênero
Um dos apontamentos mais alarmantes é sobre a transmissão da violência entre gerações. 4 a cada 10 mulheres que cresceram em um lar violento sofreram o mesmo tipo de violência na vida adulta. Ou seja, há uma repetição de padrão em seu próprio lar. A chamada Transmissão Intergeracional de Violência Doméstica (TIVD) é definida como um mecanismo de perpetuação da violência que, segundo os estudos, sugere maior incidência de violência doméstica em lares onde a mulher, seu parceiro ou ambos estiveram expostos à violência na infância. O mesmo percentual, 4 a cada 10 mulheres, também surge em relação ao impacto no comportamento masculino, revelando que parceiros que cresceram em um lar violento também cometeram agressões contra suas parceiras.

De acordo com a pesquisa, 1 a cada 5 mulheres teve contato com algum tipo de violência doméstica na infância ou na adolescência. 23% afirmaram ter lembranças da mãe sendo agredida e 13% sabem que a mãe do parceiro também sofreu algum tipo de agressão. Destas, 88% presenciaram (viu ou ouviu) as agressões físicas sofridas pela mãe.

O peso da violência doméstica também é maior quando há uma divisão entre brancas e negras. 1 a cada 4 entrevistadas negras afirmou se lembrar de episódios de violência contra sua mãe. Já entre as entrevistadas brancas, o número é sensivelmente menor quando 1 a cada 5 afirmou ter presenciado algo.

Agressores
A pesquisa explora a ação da violência por parte de parceiros e ex-parceiros das vítimas. Os índices são muito próximos entre os relacionamentos antigos e atuais das mulheres em situação de violência.

12% das mulheres relataram que o parceiro ou ex-parceiro (o mais recente), quando criança, soube das agressões físicas sofridas pela mãe. 85% deles presenciou os atos de agressão pelo menos uma vez. 10% das entrevistadas reportaram que seus parceiros e ex-parceiros haviam sido agredidos, pelo menos uma vez, durante a infância por familiares. Em Aracaju, 16% das mulheres responderam que seus parceiros e ex-parceiros souberam ao menos uma vez das agressões sofridas pela mãe. 9% das entrevistadas reportaram que seus respectivos parceiros e ex-parceiros foram agredidos na infância por familiares – neste último indicador, a concentração é em Salvador (15%).

Exposição de crianças à violência de gênero
Das mulheres vítimas de violência doméstica, 55% relataram que os filhos presenciaram o episódio ao menos uma vez.

Sobre a pesquisa
A amostra da PCSVDFMulher é composta por mais de 10 mil mulheres, sendo quantitativa, probabilística e representativa das moradoras das nove capitais do Nordeste, com idades entre 15 e 49 anos. Para o estudo do tópico Violência na Gestação, a análise se restringiu às mulheres entrevistadas pela PCSVDFMulher que tiveram pelo menos uma experiência de gravidez ao longo da vida, resultando em 4.056 mulheres que, efetivamente, responderam questões relativas à experiência de violência na gestação.

*Com informações da ONU Mulheres
Foto: Vlademir Alexandre