A história pode ser definida, em certa medida, como uma galeria incompleta de imagens icônicas, em que as fotografias vão sendo acrescentadas ao longo dos anos, reunindo novas cenas que capturam diferentes acontecimentos de caráter político, cultural e social. Não é raro vermos momentos complexos serem resumidos pela simbologia estética do clique de um fotógrafo.

Os Beatles cruzando a Abbey Road em 1969, o manifestante solitário que parou os tanques de guerra durante o massacre na Praça da Paz Celestial na China em 1989 e a menina sem-terra retratada pelo brasileiro Sebastião Salgado em 1997 são alguns exemplos de fatos imortalizados através da fotografia.

No último sábado (7), uma nova imagem entrou para essa galeria de fotos consideradas históricas. É do jovem curitibano, radicado no Rio de Janeiro (RJ), Francisco Proner Ramos, 18 anos, o retrato do ex-presidente Lula sendo carregado pela multidão em São Bernardo do Campo (SP), após ter discursado em ato político realizado em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos, pouco antes de se entregar à Polícia Federal.

 

A imagem viralizou nas redes sociais, correu o mundo e mereceu, inclusive, meia página no The New York Times, o mais importante jornal dos Estados Unidos. O filho do advogado Wilson Ramos Filho e da professora de Direito da UFRJ Carol Proner classificou como “surreal” a repercussão da fotografia.

Ele não deu entrevistas depois que a imagem o projetou à fama. De acordo com a mãe, o jovem está comovido, mas entende que “a foto e o fotógrafo não podem ser maiores do que a luta que ela representa”. A luta em questão é a defesa da liberdade do ex-presidente Lula.

Em seu site pessoal, Francisco Proner defende que “a fotografia tem o poder de conscientizar e de mudar a sociedade”. Esse engajamento político, possivelmente, é herança familiar. O pai Wilson é um dos fundadores do PT e da CUT no Paraná. Já a mãe Carol é coautora do livro “Comentários a uma sentença anunciada: o processo Lula”.

O trabalho dele, porém, não começou com a catártica foto de Lula em São Bernardo do Campo. Francisco Proner começou a experimentar a fotografia aos 14 anos de idade, registrando, segundo descreve em seu site, “temas relacionados a movimentos sociais e às contradições da sociedade”.

Em 2015, embarcou em uma expedição de volta ao mundo de carro, percorrendo todas as Américas, Europa e Ásia. Como fruto dessa expedição, publicou o livro “Nossa Grande Viagem” em 2016.

Proner venceu quatro um concurso fotográfico da revista National Geographic Brasil em 2016. Ele integra o coletivo “Farpa” e contribuiu para as redes independentes “Mídia NINJA” e “Jornalistas Livres” durante a cobertura das manifestações e da crise política do Brasil, que culminaram com o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT).

No discurso que precedeu a foto, Lula disse ao povo, na vã tentativa de consolar a multidão desolada, que eles, referindo-se aos seus perseguidores, “precisam saber que a morte de um combatente não para a revolução”. A imagem de Francisco Proner, feita no último andar do Sindicato dos Metalúrgicos, foi a melhor tradução das palavras do líder máximo do PT.

Texto: Alisson Almeida / Fotos: Arquivo Pessoal (Francisco Proner).