Eles não tomaram o poder, mas a utopia de mudar o mundo ainda inspira jovens corações revolucionários 50 anos depois daquele “Maio de 1968”, o movimento que teve início com uma revolta estudantil, evoluiu para um levante operário e culminou com uma crise política que mexeu com as estruturas da França. De lá, se espalhou pelo resto do mundo, impulsionando novas tentativas de “destruir as engrenagens” da velha ordem.

Em artigo publicado na primeira página do “Le Monde”, na edição de 15 de março de 1968, o jornalista Pierre Viansson-Ponté desenhou um país pré-revolucionário mergulhado numa espécie de apatia, provocada pela falta de conflitos armados, tensões políticas e convulsões sociais. O diagnóstico, seis semanas depois, se mostraria um dos maiores erros de análise política da histórica.

A França conformista, retratada pelo jornalista, saiu de cena para dar lugar a uma sociedade que expôs suas fraturas sociais, suas diferenças culturais e seu inconformismo político.  As mensagens dos grafites pintados nos muros da Universidade Sorbonne, um dos epicentros da revolta estudantil, reivindicando liberdade, questionando o autoritarismo e defendendo o fim das desigualdades sociais, ainda embalam os espíritos incendiários que acreditam que “juventude é revolução”.

Não por acaso, 1968 ficou conhecido como “o ano que não terminou”, devido à influência romântica que seguiu exercendo sobre sucessivas gerações jovens, incluindo a juventude brasileira contemporânea.

Rua Gay-Lussac (Paris), após uma noite de manifestações em 1968. Foto: Bruno Barbey.

Para o coordenador-geral do Centro Acadêmico de História da UERN, Rodrigo Rui de Medeiros, assim como no passado, os jovens de hoje “querem ter suas ideias aceitas”. “Queremos ser respeitados como nós somos, ser aceitos, mas também queremos igualdade política, econômica e de gênero”, disse, evidenciando que as transformações pedidas em 1968 continuam atuais em 2018.

“Nós ainda estamos inquietos e insatisfeitos com o sistema atual. Por isso estamos na luta todos os dias”, acrescentou, ao falar sobre a disposição militante da juventude que ele, como líder do movimento estudantil, representa.

Rodrigo classifica o Maio de 68 como “um marco na história do movimento estudantil”, porque “nunca antes tantos estudantes haviam se mobilizado por uma causa em comum”. O legado daquela geração, segundo ele, continua inspirando a luta da juventude ao redor do mundo.

Cronologia

A centelha que incendiaria o Maio de 68 se deu com a ocupação do Campus de Nanterre da Universidade de Paris, na região metropolitana da capital da França. A reitoria ameaçou expulsar os alunos que lideravam os protestos, o que causou a reação instantânea de estudantes de Sorbonne, que responderam ocupando a instituição sediada em Paris.

A polícia reprimiu violentamente o movimento, o que terminou provocando a adesão de operários, sindicatos e movimentos de esquerda à causa dos estudantes. Os protestos, então, se intensificaram.

Estudantes ocupam o grande pátio da Universidade de Sorbonne em 14 de maio de 1968. Foto: bruno Barbey.

Em 13 de maio de 1968, 600 mil estudantes marcharam pelas ruas de Paris. O pequeno levante de jovens que queriam mudanças no sistema educacional evoluiu para a maior greve de trabalhadores da história francesa contra o governo do general Charles de Gaulle.

As ruas de Paris, durante vários dias, se transformaram em cenário de protestos, barricadas e repressão de policiais contra estudantes. A violência policial, em vez de enfraquecer, fez aumentar o apoio da sociedade ao movimento que pregava que “é proibido proibir”, um dos slogans que sintetizavam a atmosfera de rebeldia que alimentava a euforia da juventude.

Memórias

O deputado estadual Fernando Mineiro (PT) tinha 11 anos quando eclodiu o Maio de 68. Ele contou que, na época, além dos estudos, “só pensava em soltar pipa, jogar finca e bola de gude, para esconder que era um perna-de-pau no futebol”.

Mineiro contou que a única coisa que destoava da “vida besta” em Curvelo, cidade onde nasceu, na região central de Minas Gerais (MG), “era a presença de alguns jovens que passavam longos tempos nas terras de meus tios em Cordisburgo”. Ele só saberia, tempos depois, que os estudantes eram amigos do primo que se escondiam da repressão em curso no país.

No Brasil, os ecos do Maio de 68 na França assumiram a forma da luta contra a ditadura militar, que naquele ano daria início à sua fase mais repressiva com a edição em 13 de dezembro do Ato Institucional nº 5.

O AI-5, como ficou conhecido o decreto assinado pelo governo do general Costa e Silva, vigorou até 1978. O período foi batizado como “os anos de chumbo” da ditadura brasileira, que durou até 1985.

Ateliê Popular (Paris), 1968.

O grito de liberdade dos estudantes franceses teve impacto não só na política, mas também nos costumes, na cultura e no meio intelectual. Caetano Veloso, por exemplo, se inspirou no lema central do movimento para escrever a canção “É proibido proibir”.

Mineiro disse que só veio a tomar conhecimento do Maio de 68 alguns anos depois através da leitura principalmente do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre, que havia participado dos acontecimentos em Paris.

Para Mineiro, Maio de 68 só “aconteceu” no Brasil “quando da entrada da juventude de forma mais aberta e efetiva na luta pela reconquista da democracia”. Já para Rodrigo Medeiros, além da resistência contra a ditadura militar, o movimento iniciado pelos estudantes franceses influenciou, ainda, a luta feminista, negra e LGBT.

Essas questões, para o dirigente estudantil, “foram abertas, mas não encerradas em 1968”. A luta contra as diversas formas de opressão, na opinião dele, segue exigindo a mesma disposição militante da juventude.

Tempos de Golpe

Rodrigo lembrou que, assim como em 1968, vivemos “tempos de golpe” no Brasil, numa referência ao governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB), que assumiu o poder após conspirar pela queda da presidente eleita Dilma Rousseff (PT).

Ele pregou a necessidade de o movimento estudantil “tomar consciência do que está acontecendo” para mobilizar a juventude com o objetivo de “tirar esse presidente ilegítimo do poder”.

Mineiro disse acreditar que “toda juventude tem seu micro Maio de 68, no sentido de que jovens sempre se movem por pautas que questionam, transgridem e se levantam contra o que está estabelecido, buscando romper barreiras e limites”.

Rua da Faculdade de Medicina (Paris), 1968. Foto: Bruno Barbey.

“As juventudes têm papel decisivo em todo processo de transformação social. É o segmento-força que dá o ‘start’ de toda mudança social. Eu não conheço nenhum processo de transformação da sociedade que não tenha as digitais das juventudes”, completou.

Embora existam muitas interpretações sobre o significado, a relevância e a herança daquele Maio de 1968, não dá para negar que, cinco décadas depois, o mesmo sonho transformador ainda mexe com o imaginário de tantos jovens que querem, no seu tempo, colocar “a imaginação no poder”.

Por: Alisson Almeida.