Num ato com a participação de militantes do PT, PC do B e Levante Popular da Juventude, na manhã desta quarta-feira (10), Pau dos Ferros criou o primeiro Comitê Popular em Defesa da Democracia e de Lula na região do Alto Oeste do RN. O evento na Câmara Municipal contou também com a presença de representantes das cidades de Alexandria, Portalegre, José da Penha, Doutor Severiano e Luís Gomes.

O deputado estadual Fernando Mineiro (PT) comemorou a multiplicação dos comitês pelo RN. Ele observou que depois do início dessa mobilização, no último dia 3, diversas cidades aderiram à iniciativa. Em pouco mais de uma semana, já há mais de 50 atividades previstas em inúmeros municípios potiguares.

“Vamos fundar comitês onde for possível, em todos os cantos do estado. Os comitês não são coisa do PT, mas de quem defende a questão democrática. Não é também de quem vota no Lula, mas de quem defende o direito dele ser candidato. O PC do B, por exemplo, tem uma pré-candidata, mas está na linha de frente dessa luta”, ponderou.

Mineiro fez uma retrospectiva histórica sobre a “tradição antidemocrática brasileira”, destacou a “ignorância das nossas elites” e enfatizou que “muitos problemas estruturais do país estão relacionados à reação dessas elites às conquistas da classe trabalhadora”.

Para ele, isso explica o que vem acontecendo desde a derrubada da presidenta Dilma Rousseff (PT). Com o golpe de 2016, na avaliação dele, os setores dominantes conseguiram reverter um período importante de conquistas da classe trabalhadora, que se deu nos governos Lula e Dilma.

“Esse processo é uma disputa permanente. Nas eleições de 2014, tivemos um marco importante, que foi quando a sociedade elegeu o Congresso Nacional mais conservador, mais antipovo e mais antissocial da história republicana do Brasil”, ponderou.

Mineiro ressaltou que é necessário entender essa questão do julgamento do ex-presidente Lula, no próximo dia 24, “dentro desse contexto de disputa de rumo da sociedade e de modelo de país”.

“Não se trata de criar comitês abstratos, mas de fazer um debate sobre por que a sociedade precisa resistir. Não tenho dúvidas de que precisamos criar células de resistência ao que está acontecendo no país, que é um ataque ao que a sociedade conquistou nos últimos 30 ou 40 anos no Brasil”, emendou.

Mineiro disse que, após o sucesso do golpe, os inimigos da democracia não contavam com a resistência do povo, de Lula e da esquerda, especialmente do PT. “Esses fatos imponderáveis têm reposicionado a disputa política no país. Por isso, estamos aqui debatendo, resistindo a essa tentativa antidemocrática de cassar pela via judicial a candidatura de quem está em primeiro lugar nas pesquisas no país”, acrescentou.

Para Mineiro, a antecipação do julgamento pelo TRF-4 de Porto Alegre (RS) “é uma operação cirúrgica para criar um clima no país de que o Lula vai ser condenado e, assim, não será candidato agora em 2018”. “Mas o Lula será o candidato do PT. No dia 25, depois do julgamento, ele será formalizado como candidato pela Executiva do PT”, anunciou.

Estado Permanente de Golpe

A advogada Lidiana Dias afirmou que, nesse momento, o que está em jogo é o interesse da população. Para ela, nós vivemos um “estado permanente de golpe no país”.

“Desde o processo do impeachment contra a presidenta Dilma, que rompeu com o processo democrático, a retirada de direitos vem como uma continuidade de pauta. O impedimento do presidente Lula se insere justamente nesse contexto”, alertou.

Lidiana disse que o processo contra Lula “está contaminando desde o início, porque no nosso ordenamento jurídico o juiz não pode ser julgador e acusador”. Ela classificou a atuação do juiz Sérgio Moro como “inquisitorial”. Por isso, na opinião dela, a condenação na primeira instância já era esperada.

“Infelizmente, é o que deve acontecer também agora no TRF-4 de Porto Alegre. É um julgamento político, com apoio da grande mídia. A saída é ir às ruas”, convocou.

A professora e integrante do Levante Popular da Juventude, Taiza Barros, disse que a perseguição ao ex-presidente Lula “é uma armadilha da direita neoliberal, que tenta impedir que ele volte ao poder, apesar da vontade de povo”.

Já o pastor da Igreja de Cristo de José da Penha, Miguel Ângelo, “é preciso articular uma resistência popular, com todos os setores da sociedade, para lutar pela restituição da democracia”.

“Eu, enquanto pastor e membro da Frente Evangélica em Defesa do Estado Democrático de Direito, venho mostrar que há exceções no meio evangélico. Não somos todos conservadores. Vim marcar presença e mostrar que estamos resistindo”, explicou.

Para o cantor Eliano, um dos artistas locais que participaram da fundação do comitê, existem duas maneiras de transformar as coisas: através da política e da cultura.

“A cultura tem o poder de mobilizar, atrair e provocar a reflexão. Nesse momento, precisamos usar a cultura para levar essa mensagem de resistência democrática às pessoas”, declarou.

Comitê da Fetarn

Mais cedo, antes do evento na Câmara Municipal de Pau dos Ferros, Mineiro participou da abertura do 10º Congresso Estadual da Fetarn (Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do RN). De acordo com o presidente da entidade, Manoel Cândido, o evento reuniu representantes de todos os municípios do Alto Oeste.

Mineiro destacou que a Fetarn “é parceira da luta dos trabalhadores rurais do RN”. Na ocasião, ele falou sobre os efeitos da reforma previdenciária para os trabalhadores rurais, especialmente para as mulheres do campo.

“Devido à resistência nas bases, o governo recuou no final do ano passado na reforma, mas agora a proposta voltou à volta, devendo ser votada em fevereiro. As mudanças são muito duras e atingem diretamente os trabalhadores rurais na questão do aumento da idade mínima para se aposentar e ao possibilitar que empresas contratem trabalhadores rurais como microempreendedores, sem nenhum direito”, alertou.

Além disso, Mineiro falou sobre o pacote de medidas fiscais enviado pelo Governo do Estado à Assembleia Legislativa. Ele lembrou que uma das propostas é a extinção da Seara (Secretaria Estadual de Assuntos Fundiários e Apoio à Reforma Agrária).

Ele reiterou que vai votar contra as medidas do governador e sugeriu que a Fetarn fizesse uma moção de repúdio, para ser encaminhada a todos os parlamentares da AL.

A participação de Mineiro no evento terminou com a fundação do Comitê da Fetarn em Defesa da Democracia e do ex-presidente Lula.

Fotos: Vlademir Alexandre.