A privatização da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), responsável pela geração da energia elétrica distribuída aos nove estados nordestinos, é um crime contra a população da nossa região. Essa foi a principal conclusão dos debatedores que participaram da audiência pública sobre os impactos da venda da companhia para o RN e o Nordeste, nesta sexta-feira (30), no auditório da Assembleia Legislativa.

De iniciativa do deputado estadual Fernando Mineiro, o evento marcou, ainda, o lançamento da Frente Parlamentar em Defesa da Chesf no RN. O parlamentar reafirmou seu posicionamento contrário à venda da companhia, argumentando que essa medida “representa uma ameaça ao desenvolvimento do estado e do Nordeste”.

O ex-diretor de Operações da Chesf, Mozard Bandeira, ressaltou que a Eletrobras foi criada “com a missão decisiva de expandir a distribuição de energia elétrica e desenvolver o país”.

Mozard enfatizou que a história da Chesf, controlada pela Eletrobras, “se confunde com o desenvolvimento do Nordeste”. “A Chesf é a maior geradora de energia elétrica em capacidade instalada do Brasil. Ela tem uma série de usinas no rio mais importante do Nordeste, que é o São Francisco. Privatizar a Chesf significa vender o São Francisco, porque o insumo básico para gerar energia é a água. A empresa que comprar a companhia não vai querer que esse insumo seja usado para outra finalidade”, advertiu.

Ele reiterou que “o que está acontecendo é um crime contra o povo nordestino”, porque a venda da companhia vai entregar à iniciativa privada o controle de dois insumos básicos para a sociedade, que são a energia e a água.

“A Chesf tem 69 anos, com uma história que se confunde com o desenvolvimento do Nordeste. Ela tem gerado desenvolvimento e diminuído as desigualdades regionais, que ainda são muito grandes. É um absurdo entregar um patrimônio desse, sem debate nenhum com a sociedade”, completou.

Para o deputado estadual Isaltino Nascimento (PSB-PE), relator da Frente Parlamentar em Defesa da Chesf e do São Francisco em Pernambuco, a privatização da companhia “gera uma incerteza muito grande em relação ao destino futuro das águas do rio São Francisco, cujo controle é feito pela Chesf”.

“A concessão será por trinta anos. Isso significa que, por trinta anos, o povo nordestino vai ficar à mercê dos interesses do interesse privado”, observou.

Ele deu o exemplo da venda da Cemig em Minas Gerais, comprada por três empresas públicas da China, França e Itália. “Estamos falando de empresas públicas de outros países comprando empresas públicas do Brasil. Por que os demais países podem ter o controle do seu setor energético, mas nós não?”, questionou.

O parlamentar pernambucano destacou, ainda, que a Chesf, além da geração de energia, tem uma “relevância estratégica” para os estados nordestinos pela sua “relação com as comunidades ribeirinhas, os povos ciganos, a população indígena, os agricultores familiares e o apoio à cultura do Nordeste”.

A senadora Fátima Bezerra (RN), coordenadora da Rede Parlamentar em Defesa da Soberania Energética Nacional, declarou que, neste momento, “trata-se de defender um dos patrimônios mais importantes que temos para a construção de um país soberano e sustentável, que é nosso setor elétrico estatal”.

“O governo ilegítimo de Michel Temer, com ajuda dos seus aliados do PMDB, PSDB e DEM, quer vender a Eletrobras sob o pretexto de sanear as contas públicas, o que é um crime. Cobrir rombo [fiscal] vendendo um ativo estratégico é absurdo, com consequências terríveis para o desenvolvimento regional e, mais especificamente, para o Rio Grande do Norte, que pode não ver a chegada das águas da transposição do rio São Francisco”, avaliou a senadora.

Fátima insistiu que “não podemos tratar a energia como uma mercadoria, porque mercadoria é aquela história: quem tem dinheiro compra, quem não tem, fica sem ela”. A senadora questionou, ainda, se teria sido possível criar um programa da abrangência do “Luz para Todos” se a Eletrobras não fosse uma empresa pública.

O secretário-geral do Sindicato dos Eletricitários do RN (Sintern), Ari dos Santos de Azevedo Filho, ressaltou que “o governo está colocando empresas estratégicas para o desenvolvimento do país à venda de maneira irresponsável”.

“Estamos tratando de uma questão de soberania nacional. A promessa de que a privatização vai diminuir o preço da energia é mentira. O que vai ocorrer é justamente o contrário: nós vamos pagar mais caro pela conta de luz”, alertou.

O representante da CUT-RN, Marcelo Manduca, disse que a sociedade precisa “somar esforços para impedir a entrega do patrimônio nacional” pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Ele foi acompanhando pelo presidente da CTB-RN, Moacir Soares, que disse que a luta em defesa da Chesf “interessa a toda população, independentemente da sua categoria profissional”.

A audiência contou, ainda, com a participação dos deputados estaduais Souza Neto, Hermano Morais e Larissa Rosado; do representante da Confederação Nacional dos Urbanitários (CNU), Fernando de Andrade Neves; e do representante da Federação Regional dos Urbanitários do Nordeste (FRUNE), José Flávio Maia Uchoa.

Fotos: Vlademir Alexandre.