A privatização da Eletrobras, além do reflexo imediato no aumento da conta de luz dos brasileiros, vai provocar sérias consequências econômicas, sociais e ambientais para o Nordeste. A maior ameaça é em relação à Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), que controla as usinas que fornecem energia aos nove estados da região, além de ser responsável pela gestão das águas do rio São Francisco.

A venda das usinas do sistema Eletrobras, particularmente daquelas geridas pela Chesf, poderá inviabilizar, por exemplo, a transposição do São Francisco, maior obra de infraestrutura hídrica do Nordeste. Além disso, a privatização coloca em risco a própria preservação do rio, cuja vazão será usada, prioritariamente, para assegurar a água necessária à geração da energia contratada.

Para o ex-presidente da Chesf, José Carlos Miranda, a tentativa de privatizar a Chesf é “preocupante”, uma vez que o São Francisco é principal fonte hídrica dos nove estados do Nordeste.

“Com a privatização, as margens do rio não serão usadas prioritariamente como produtoras de alimento. A Chesf é uma empresa que tem vocação voltada para o desenvolvimento do Nordeste.  A privatização não vai garantir essa vocação”, comentou, durante audiência pública em agosto na Câmara Municipal de Recife (PE).

Entidades sindicais do setor elétrico têm alertado que, com a venda das usinas controladas pela Chesf, a iniciativa privada vai impor uma série de obstáculos ao uso das águas do rio para outros fins que não sejam a geração de energia.

Para a Federação Regional dos Urbanitários do Nordeste (FRUNE), a prioridade da iniciativa privada será, obviamente, assegurar o uso exclusivo da água ao funcionamento das usinas para geração de energia elétrica.

“Há, também, o desinteresse de continuar levando energia para as comunidades pobres e distantes, que não podem pagar por ela”, sustenta a entidade, acrescentando que “por ser uma operação custosa, a preservação do rio está fora dos planos da iniciativa privada”.

Importância da Chesf para o RN

Todo o sistema de geração e transmissão que assegura o suprimento de energia elétrica ao Rio Grande do Norte é operado pela Chesf, seja através de usinas e linhas próprias ou da integração com sistemas de distribuição da Cosern e da Energisa (PB).

Em relação à geração de energia elétrica, nosso estado conta com seis usinas termelétricas (Baía Formosa, Alto do Rodrigues, Arês e Macaíba) e 123 eólicas (Areia Branca, Bodó, Ceará-Mirim, Galinhos, Guamaré, Jandaíra João Câmara, Lagoa Nova, Macau, Parazinho, Pedra Grande, Rio do Fogo, São Miguel do Gostoso, Serra do Mel, Santana do Matos, São bento do Norte, Touros e Tenente Laurentino Cruz), autorizadas pelas ANEEL.

Dados de um relatório da empresa sobre a situação das obras planejadas para o RN, divulgado em fevereiro desse ano, indicam que os investimentos da Chesf no Estado, no período de 2007 a 2016, chegaram um total de R$ 838,6 milhões. Em 2017, estão previstos mais R$ 62,3 milhões, totalizando R$ 900,9 milhões.

Os gastos, segundo a empresa, são necessários para atender ao crescimento do mercado de energia e viabilizar mais investimentos nos diversos setores da economia do Rio Grande do Norte.

Em carta enviada ao governo federal, os governadores do Nordeste criticam os planos de privatização da Eletrobras. No documento, eles pediram a exclusão da Chesf do sistema Eletrobras, “transformando-a numa empresa pública, vinculada ao Ministério da Integração Nacional”.

Os gestores afirmaram que a privatização do sistema, particularmente da Chesf, “põe em risco a segurança hídrica de numerosa população e ainda desestimula que levemos adiante estudos e planos para outros usos da água, no que podemos estar comprometendo o futuro de gerações”.

Foto: Vlademir Alexandre