“Eu ensino muitas coisas para as crianças. A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças de cada uma, ajudem a quem precisa mais”. A fala é um trecho da carta que a professora Débora Seabra de Moura, portadora de Síndrome de Down que trabalha na Escola Doméstica (Natal/RN), escreveu em resposta à publicação da desembargadora Marília Castro Neves (TJ/RJ) – que a ridicularizou em publicação preconceituosa no Facebook. Ela recebeu essa lição de moral às vésperas do Dia Internacional da Síndrome de Down, comemorado no dia 21 de março.

“Apuro os ouvidos e ouço a pérola: o Brasil é o primeiro país a ter uma professora portadora de síndrome de down!!! Poxa, pensei, legal, são os programas de inclusão social… Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem???? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto, tá?”, escreveu a desembargadora do RJ.


Débora Seabra tem 36 anos e trabalha há 13 anos como assistente na Escola Doméstica, colégio particular e tradicional de Natal. Ela é autora do livro infantil “Débora Conta Histórias” (Alfaguara Brasil, 2013) e já recebeu convites para realizar palestras em várias partes do Brasil e no exterior. Por ser considerada exemplo no desenvolvimento de ações educativas, ela recebeu, em 2015, Prêmio Darcy Ribeiro de Educação em Brasília.

“O que eu acho mais importante de tudo isso é ensinar a incluir as crianças e todo mundo pra acabar com o preconceito porque é crime. Quem discrimina é criminoso!”, finalizou a professora Débora na carta.


A Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD) emitiu uma nota de repúdio à manifestação de preconceito da desembargadora Marília em relação às pessoas com deficiência.

“Após milênios de exclusão, nos últimos 70 anos, a sociedade em todo o mundo vem aperfeiçoando-se em seu processo civilizatório ao reconhecer os direitos e propor melhoria das condições de vida da pessoa com deficiência. Não obstante essa árdua luta que visa mudar os paradigmas sociais e culturais mediante novos valores que reconhecem a dignidade humana, nos deparamos com comentários feitos por pessoa cujo exercício da nobre função de magistrada, desce ao mais baixo nível, tornando público em perfil do Facebook seu preconceito contra as pessoas com deficiência”, diz o texto.

CASO MARIELLE
A desembargadora Marília Castro Neves é a mesma que acusou a vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ), executada na última terça-feira (13), de ser a culpada pela sua própria morte por estar “engajada com bandidos” e ter sido “eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores”.


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) recebeu duas ações contra a desembargadora. A Associação Brasileira de Juristas pela Democracia pede a abertura de processo disciplinar contra Marília e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) afirma que ela cometeu crime e atentou contra a honra de uma pessoa já falecida.

Foto: Aquivo pessoal/Facebook da Débora
*Com informações do DCM