Em debate realizado no primeiro dia da Cientec 2017, no final da tarde desta quarta-feira (25), professores alertaram para o corte nos investimentos em ciência, tecnologia e inovação, ressaltaram a importância do gasto público nessas três áreas para o desenvolvimento do país e do estado e afirmaram que o desmonte promovido pelo governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) ameaça o futuro da UFRN.

O deputado estadual Fernando Mineiro (PT), presente ao evento, observou que “o desmonte da política de ciência e tecnologia do país não caiu do céu”. Ele afirmou que “trata-se de um projeto de desconstrução da soberania do país e isso passa pelo desmonte das políticas públicas de ciência, tecnologia e educação”.

Na abertura do debate, promovido pelo Sindicato dos Docentes da UFRN (Adurn), a reitora Ângela Paiva enfatizou que “nenhum país se desenvolve econômica e socialmente sem priorizar os investimentos em ciência e tecnologia”.

“Precisamos dialogar com a sociedade para que as pessoas entendam que o que se produz na universidade é tão essencial como o café da manhã”, comentou a reitora. Para Wellington Barbosa, presidente do Adurn, “é necessário reforçar a batalha pela ciência e pela UFRN”.

A professora Maria do Livramento Clementino destacou que a interiorização das Universidades Federais e dos Institutos Federais, ocorrida durante os governos Lula e Dilma, promoveu a interiorização do conhecimento em ciência, tecnologia e inovação, o que impactou o desenvolvimento econômico no RN e do Nordeste.

Esse ciclo, porém, ainda segundo a professora, foi interrompido com o início do governo Temer. “O Brasil não está priorizando a educação superior e, em particular, a ciência e a tecnologia”, pontuou.

Maria do Livramento lamentou o fato de que a participação do RN em pesquisa e desenvolvimento, em relação ao restante do país, é perto de 0%. Ela explicou que, segundo dados do Censo de 2010 do IBGE, 58,7% dos empregos gerados no estado são nas áreas da administração pública e do comércio varejista, enquanto o trabalho na área de informática representa apenas 0,5%.

“Investir em ciência e tecnologia é essencial para o desenvolvimento do Brasil, do Nordeste e do RN. Precisamos investir na qualificação de pessoas e no desenvolvimento de talentos para nos prepararmos para o futuro”, acrescentou.

Fim do ciclo neodesenvolvimentista
Já para o professor João Emanuel Evangelista, uma das explicações para a “retração orçamentária” vivida pelas Universidades Federais tem a ver com a “crise econômica e política” que se instaurou no país com o “golpe político” contra a presidente Dilma Rousseff.

Ele disse que “o projeto neodesenvolvimentista” iniciado com os governos Lula e Dilma “foi interrompido com o golpe político que deu origem ao governo Temer”. “O novo governo não age aleatoriamente, como muitos pensam, mas se orienta, isso sim, pelos documentos ‘Ponte para o Futuro’ e ‘Travessia Social’, desenvolvidos pela Fundação do PMDB”, comentou.

Os dois documentos, segundo o professor, propõem um “resgate radical do neoliberalismo”, rompendo com todos os avanços sociais que foram obtidos nos últimos anos. Ele ressaltou que a política de Michel Temer “defende cortes drásticos nas políticas sociais de educação, saúde, ciência, tecnologia e inovação”.

O professor Jorge Tarcísio da Rocha Falcão disse que o Brasil investe apenas 1,4% em ciência e tecnologia, enquanto países como a Coreia do Sul e o Japão aplicam, respectivamente, 4,3% e 3,6%.

Reagir
O neurocientista Sidarta Ribeiro, diretor do Instituto do Cérebro da UFRN, classificou o momento vivido pela ciência e tecnologia no país como “gravíssimo”. Ele comemorou, porém, o fato de as pessoas estarem “saindo do torpor político e percebendo que esse governo ilegítimo é inimigo do país”.

“A gente precisa reagir com entusiasmo. Mesmo que esse governo ilegítimo se mantenha até o final, no ano que vem haverá eleição. Precisamos eleger alguém que se comprometa em investir em ciência, tecnologia e inovação, sem quaisquer cortes”, defendeu.

Para o professor John Fontenele de Araújo, secretário regional da SBPC-RN, a situação “é muito preocupante”, porque, em sua opinião, “a drástica redução orçamentária ocorrida em 2017 e projetada para 2018 deve ter um impacto enorme no processo educacional, porque parte da ciência brasileira é feita nas universidades”.

A coordenadora-geral do DCE da UFRN, Yara Costa, alertou para o impacto na vida dos estudantes pobres dos cortes promovidos pelo governo do PMDB-PSDB-DEM.

“Esse projeto de governo exclui da universidade estudantes com vulnerabilidade social, principalmente negros, que ingressaram no ensino superior graças às cotas. Discutir ciência e tecnologia passa, necessariamente, significa discutir a vida desses estudantes, que dependem das bolsas de apoio científico para se manter na UFRN”, destacou.

Fotos: Vlademir Alexandre